Documentário

Um gênio que repensa o passado

Contraplano

diego.benevides@diariodonordeste.com.br • Coluna focada no melhor do cinema brasileiro e mundial

00:00 · 26.11.2016 / atualizado às 13:33 · 12.12.2016 por Diego Benevides - Crítico de cinema
Diretor de filmes como "Scarface" (1983), "Os Intocáveis" (1987) e "O Pagamento Final" (1993) é homenageado em documentário cujo conteúdo é o maior atrativo

É de se impressionar que a criatividade do cineasta Noah Baumbach, responsável pelos ótimos "A Lula e a Baleia" (2005), "Margot e o Casamento" (2007) e "Frances Ha" (2012), tenha dado um tempo ao retratar a trajetória do aclamado Brian De Palma no documentário "De Palma", codirigido com Jake Paltrow.

Claramente um filme de amor em homenagem a um dos cineastas mais lembrados pelos cinéfilos e pela crítica, "De Palma" coloca uma câmera na frente do personagem, em uma passividade às vezes constrangedora por em momento algum esboçar um pouco de inventividade.

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Óbvio que é sempre bom aproveitar a presença de De Palma para que ele mesmo possa olhar para o passado, falar sobre o seu processo criativo no decorrer dos anos e trazer de volta seus filmes para reflexão. Nesse ponto, "De Palma" é um prato cheio para os admiradores do diretor.

Por outro lado, o documentário deixa um gosto amargo por ser tradicional demais, muito quadrado para homenagear uma figura que, a partir de sua inegável inspiração em Alfred Hitchcock, criou filmes obrigatórios, como "Scarface" (1983) e "Os Intocáveis" (1987), para citar alguns.

A montagem acredita ser suficiente a inserção de trechos dos filmes que reforçam os depoimentos do diretor e, sinceramente, rever um pouco de "Carrie, a Estranha" (1976) e "Vestida para Matar" (1980) mostra a sobrevivência dessas obras com a passagem do tempo, mas faz de "De Palma" um produto genérico e que oferece pouco.

O documentário não se afasta muito do que costumamos ver nas informações extras de um DVD: depoimentos curiosos e só. Em momento algum, Baumbach e Paltrow fazem do próprio filme uma nova forma de olhar para o cinema.

Lacunas

Como todo gênio, De Palma não esconde sua arrogância ao refletir sobre as acusações de misoginia ou mesmo sua insatisfação em precisar se dividir entre o cinema autoral e o comercial. E isso é bom porque percebe-se certa humanidade por trás do nome.

Por outro lado, Baumbach e Paltrow entram pouco em questões que talvez dessem mais vitalidade a "De Palma", como uma investigação mais densa sobre a Nova Hollywood, movimento que renovou a linguagem e a estética do cinema americano no início dos anos 1960.

George Lucas, Martin Scorsese, Paul Schrader e Francis Ford Coppola são brevemente citados, de uma forma mais afetiva do que profissional. Também está no documentário a estreita relação de De Palma com atores que trabalhou desde cedo, especialmente Robert De Niro e Al Pacino,que ganham mais atenção justamente pelas inusitadas experiências vividas nas filmagens.

De Palma diz que acredita que um cineasta realiza bons filmes aos 30, 40 anos. Aos 76, o cineasta continua na ativa, talvez não tão afiado quanto antes, mas com uma contribuição inegável para um documentário simples demais.

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