Clássico

A realidade pela lente da câmera

Contraplano

diego.benevides@diariodonordeste.com.br • Coluna focada no melhor do cinema brasileiro e mundial

00:00 · 10.12.2016 / atualizado às 13:37 · 12.12.2016 por Diego benevides - Crítico de cinema
Primeiro filme em inglês do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, "Blow-Up" recebeu duas indicações ao Oscar, por melhor direção e melhor roteiro

Após se consagrar em seu país de origem com filmes como "A Noite" (1961) e "O Eclipse" (1962), o cineasta italiano Michelangelo Antonioni fez uma série de trabalhos em inglês. O primeiro deles foi "Blow-Up - Depois Daquele Beijo" (1966), rodado na Inglaterra, que estreou originalmente há 50 anos e agora retorna às telonas em cópia restaurada.

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Pelas lentes de um fotógrafo ambicioso e temperamental, o drama mostra o interesse de Antonioni em se aprofundar nas questões mais humanas, criando alegorias da percepção da realidade em si. Na trama, David Hemmings interpreta Thomas, fotógrafo bem conceituado que trabalha no ramo da moda. De um lado, as modelos se submetem ao seu método grosseiro de trabalhar. Do outro, ele se encanta, durante uma caminhada pela cidade, por um casal em um parque.

Ao fotografá-los sem permissão, ele conhece uma mulher que tem interesse em ficar com as fotos. Durante o envolvimento deles, Thomas vai descobrir que naquele cenário onde o casal estava pode ter acontecido um assassinato e que sua câmera pode ter captado.

Retrato

Fazendo um registro de uma geração, a tirar pelo comportamento psicodélico de um grupo de jovens que aparece no início e no fim da projeção, Antonioni também discute o vazio existencial de uma certa classe burguesa.

As metáforas que a imagem faz da própria imagem, como na sequência final do longa, funcionam de forma assertiva dentro dessa investigação do comportamento de uma sociedade sessentista.

Após cinco décadas, "Blow-Up" envelhece quando se discute uma inevitável representação dessa época, mas a destreza sensorial de Antonioni se mantém viva e é sempre um prazer ver como o diretor constrói seus personagens e o que resta de diálogo com o hoje.

Ampliação

Na sequência da revelação das fotos tiradas no parque (e da revelação dos próprios personagens), Antonioni se utiliza de uma montagem dinâmica para potencializar uma descoberta aterrorizante das ampliações (o blow-up). Ainda surpreende a forma inusitada com que ele brinca com a sensação de perigo, melhor do que tantos filmes realmente de suspense.

O diretor também não abre mão do longos planos que ambientam momentos-chave, traduzindo a preocupação em criar uma atmosfera possível, onde as distrações fazem parte do contexto. Em "Blow-Up", é possível perceber também os flertes sexuais e de exposição do corpo que provocam o espectador. Por outro lado, Antonioni se vicia demais ao utilizar zooms inadequados que não acrescentam significado em termos de linguagem.

Ao estudar a relação do indivíduo com a realidade em que está inserido, Antonioni conta com a entrega de David Hemmings para ser o mocinho e o vilão. Hemmings transita entre as inconstâncias que o roteiro permite e tem momentos que geram asco, como aqueles onde trata as modelos como meros bonecos de fetiche, e outros de sensibilidade extrema, em uma epifania final num campo de tênis.

Ao questionar a sociedade e fazer política por meio da arte (do cinema e da fotografia), Antonioni sugeriu rumos que até hoje inspiram cineastas no mundo inteiro. Rever "Blow-Up" é, antes de tudo, um agradecimento pelo legado precioso que ele deixou.

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