Matéria-638373

Carlos Augusto Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:49 · 15.05.2009
Três estações do poema

O ponto de partida é o centro daquilo que chamamos poema. Uma insistência. Uma urgência ainda e muito necessária, ao que parece. Aquilo que chamamos verso, desconfigurado, normatizado, formalista ou experimento, isso já não importa. Interessa ser ele mesmo, poema, verso, ainda. Meu ponto de partida é esse trilho, senda, vereda, picada aberta pela palavra. Uma visita a três estações do poema, três livros bonitos de vozes femininas, onde o gênero, mesmo marca de corte, importa bem pouco. A palavra ganha ante qualquer suspeição de limite, categoria, feição disso ou daquilo. Melhor ainda, quando essas três produções passam à margem, pelas bordas do que é eletivo na literatura contemporânea e seus cercos, suas escolhas, apadrinhamentos e acertos de última hora. Quem quiser, pode muito bem me acompanhar. Estamos de partida.

Primeira estação

Dalila Teles Veras. Este nome já freqüentou esta coluna antes, numa conversa rápida, num rastreamento que andei tratando a respeito do que é possibilidade de livro, projeto de livro e publicar, pois Dalila está à frente da Alpharrábio Editora e Livraria, uma boa ideia de livraria-sebo-selo editorial em Santo André, São Paulo. Mas Dalila Teles Veras também escreve e acaba de publicar seu mais recente livro de poemas “Retratos Falhados” (Escrituras, 2009), que reúne três plaquetes anteriores lançadas pelo selo Alpharrábio, inclusive a série “Pecados”, uma bonita caixa, ou melhor, um bonito livro-objeto contendo sete poemas ilustrados por artistas amigos da autora, cada, com tiragem limitada. Dalila nasceu em Funchal, Ilha da Madeira, mas vive há mais de quatro décadas no Brasil. Apesar de sua confessa influência da lírica e da tradição poética lusitana, qualquer associação mais imediata com essa mesma tradição, com um olhar mais reducionista, deve ser visto com muito cuidado, principalmente neste recente livro. Se estão presentes um carregamento de lirismo e memória, também está nos seus ´Retratos Falhados´ uma arrebatadora visão de urbanidade, um enclausuramento lingüístico típico da escrita contemporânea, muitas vezes um quase silenciar. Estão presentes ainda as imagens da doença, a dor, a presentificação da morte, a espera, a chegada e um luto muito particularizado. Porém, não tomemos como algo de essencialmente negativo, pois seus versos são antes questionadores, uma forma de pensar os limites, o poder sobre a combinação vida-morte, o poder sobre a idéia de cura e a nossa fragilidade diante do que é finito.

Segunda estação

Também já tratei aqui de um projeto bonito de editoração lá de Porto Alegre capitaneado Ronald Augusto e Ronaldo Machado, chamada Editora Éblis. Importantíssimo gesto da distância, da margem, de um outro circuito para o poema. Da Éblis já saíram livros de Cândido Rolim (Camisa Qual), Ademir Demarchi (Passeios na floresta), Paulo de Toledo (51 Medicamentos) e dos próprios Ronald (No assoalho branco) e Ronaldo (Solecidades). Mais recente e agora, a editora lança ´Dente de Leão´, de Cecília Borges, que já publicou ´Resposta´ e assina o blog: www.cecilia-borges.blogsot.com, além de residir no Rio de Janeiro, e daí eu não conseguir deixar de associar sua escrita, os poemas que se mostram, com um certo ar de quase despojamento, uma confissão vívida, alegre porém marcada por profunda acidez. Amargor? Quem sabe, mas muito vivo, como disse. Difícil para mim deixar de associar, conectar, ´linkar´ a poesia de Cecília Borges dizendo: ´como é bom saber que/ logo vou te ver/ meu sapato listrado pode saltar/ entre turistas chineses engraçadinhos/ e compromissos/ só para te encontrar/ nesse bairro de pronúncia gostosa:/ te vejo no Leblon, amor, Leblon´, a algo que me remeta, me lembre os versos desbocados e lindos de Ledusha Spinardi. Ledusha, por favor, mande-me notícias! E no fundo, tudo isso é muito bom, como é bom saber da metáfora possível para o desejo, o encontro, o cair fora presente nestes versos afiados como dentes de leão faminto e brabo. Cecília escreve como quem manda um recado, que é quase uma provocação, mas também um atestado de uma tristeza, um samba bonito. E agora, o condutor anuncia uma outra estação.

Terceira estação

Esta é a última parada. Já devia tê-la tratado, escrito bem antes. Chama-se Outras Palavras/Otras Palabras (7 Letras, 2008), belo livro bilíngue da carioca Diana Araujo Pereira, publicado ainda nos finais de 2008 mas, que só agora, com o devido tempo, pois cada coisa merece este mesmo sintoma chamado tempo, faço mover nesta coluna. Poesia? Talvez. Posso tratar como poema? Quem sabe. Mas nomear o que escreve Diana é detalhar, explicar, classificar demais e aqui não cabe isso. Inscrições. Isso! Inscrições carregadas de sentido e reflexão a partir daquilo que é palavra. Para início de livro e conversa: ´Escrevo da beira de um nome que não é meu´. Talvez escreva como uma proposição de abismo que é uma rota para quem se arrisca a tratar das palavras, dizer das coisas do mundo. Diana busca uma imagem essencial com suas inscrições, uma idéia primeira da palavra que é o suporte da vida, dos sentidos onde tudo está ao redor. Do sentido até do que falta. Eis o chamado do abismo: ´Um nome que me falta, o rosto que me escapa´. O perigo aqui é o esquecimento, o nome que não se diz, não se pode dizer. Um nome que se apaga: ´Riscado o nome, o que sombra de ti mesmo?´, pergunta. Em suma: a palavra que dá substância e significado à vida e a mesma que faz dessa mesma vida corpo fugidio, um nada, desaparecimento, quando não é possível dizer. Mas agora não é mais. Deixo vocês com o silêncio. Este é o final da linha, preciso descer.

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