Matéria-629398

Carlos Augusto Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

01:49 · 10.04.2009
Livro como um cartão de visita

Há os que escrevem e silenciam. Discretos, maquinando palavras, atos e omissões sem culpas, sem grandes culpas. Há os que escrevem e acham um viés de gritar, fazer estrido e paquerar com o sucesso. Há os que escrevem e se desesperam com a ausência do sucesso, da glória, do estrelato, do grande contrato editorial. Meu Deus! tende pena destes coitados. Ameniza, Senhor, tamanho sofrimento. Há os que escrevem só por vontade, por um nada, pelo simples querer.

Há também aqueles que escrevem e se reconhecem como tais, ou problematizam esse reconhecer: o que é escrever? Que publicam, circulam, são publicados, vistos, admirados na medida (qual medida?), organizam o movimento e, ao mesmo tempo, podem silenciar, não dizer de nada, daquilo, estar apontando isso ou aquilo. Há os que escrevem e podem calar. Entrar no jogo da mercancia do livro, mas podem transformar a ideia do livro no gesto diminuto da companhia, de saudar as companhias, as amizades. Livros como um agradecimento. Livros como uma graça, ou, quem sabe, cartões de visita.

Lembro desse gesto ao vasculhar minha pobre biblioteca, ainda ajustando os livros na ordem, alguma ordem que vai surgindo lentamente, que vai sendo adiada, mas cumprida, feita, na medida do possível, do fazer. Vejo entre os achados os delicados livrinhos ofertados a mim pelo poeta e amigo Heitor Ferraz. Livros artesanais, se entendermos a artesania de hoje como aquela em que nos auxilia um computador qualquer e impressora das mais caseiras. Papel A4 comum para o miolo, um outro de mais fino trato para a capa, comprado de passagem e nem tanto de resma. Um grampeador muito simples. Livros feitos em casa, tanto que sua editora imaginária chama-se ´Livros da Casa´. Para os amigos, um gesto do singelo e do agrado. Três volumes para mim: ´Dias assim (só para fumantes)´, ´Um a menos´, ´Improvisos´, este último com o registro da visita dos amigos que estão de passagem por São Paulo, naquele Julho de 2008, em que a memória nos coloca de volta, caminhando na madrugada e uma lâmina de vento frio corta as orelhas, mas não impede o riso frouxo, a malícia, alguma possibilidade de alegria adiando o enfrentamento do mundo quando amanhece. Eu de cá agradeço em silêncio, enquanto releio os poemas de Heitor e suas intermináveis caminhadas para algum lugar onde não se sabe onde dentro de si mesmo.

Vasculho, vasculho, vasculho e encontro um envelope vermelho a mim recém ofertado e dentro do mesmo um livrinho vermelho de igual artesanato, folhas imperfeitas que saltam para além da capa, o bonito que sobra da imperfeição: ´That´s Amore´, de Virna Teixeira, que chegou numa noite quente e chuvosa, os amigos já dispersos da noite festiva em casa, mas chegou como quem era há tempos aguardada, como quem retorna para casa de viagem longa. Na bagagem, Virna me trouxe esse livro que é como um também cartão de visita, um postal de viagem, as suas viagens pela tradução em 13 poemas de amor, amores, vertidos por ela diretamente do inglês ( em sua maioria) ou do francês. Versos de Appolinaire, Tzara, Robert Creeley, William Carlos Williams, Ted Hughes e outros, embalados, dobrados e costurados de próprio punho, ela me conta, em 50 exemplares, carimbados e numerados, um ofício que lhe exige concentração e precisão, daí, um nome bonito e sugestivo para o que já virou um selo, sua editora que traz no bolso: Arqueria.

Os poemas de ´That´s Amore´, suas traduções, foram publicados no blogue que Virna Teixeira (http://www.papelderascunho.net) mantém para o exercício do poema e da tradução. A idéia de transportá-los para o livro, de fazer os livros de próprio punho tem a ver com a dificuldade eterna de publicar em massa, principalmente traduções. Nada que uma impressora caseira e uma boa dose de disposição não resolvam. Resolvem? Você, futuro poeta, se dará por satisfeito? Sentirá-se feliz com estes gestos do mínimo? Poesia, meu caro, é a arte da paciência e de seus limites.

Volto com os livros para a estante. Há outras coisas por mostrar e dizer. Mas agora não é hora. Agradeço a Heitor Ferraz sua lembrança e a falta dos amigos de longe se amplia e cava como um gesto mais fundo. Agradeço a Virna pelo envelope vermelho e pelo que veio dentro dele. Mas fico feliz ainda mais porque é como alguém que retorna, parte, mas promete, dessa vez, voltar. A qualquer hora tomo de uma coragem e copio essas ideias bonitas e faço um livro que é pura oferta e amizade. Não tenho a menor idéia do que dizer, mas o título retiro agora do cumprimento que saco para alguém que me chega em casa, interrompendo este artigo que termina. Alguém que veio de longe, de um sertão que não lembro o nome: ´Fique à vontade, a casa também é sua´.

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