Matéria-533973

Carlos Augusto Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:59 · 02.05.2008
De invenção e de passagem

E assim, vou me apropriando e tomando conta deste espaço, vale lembrar do projeto de arejamento, para tentar dar um pouco de conta a respeito de alguns trabalhos interessantes dentro da produção de literatura contemporânea brasileira, seja lá o que esse termo signifique, mas é o que nos vem à mão. Aproveito a visita do poeta pernambucano Delmo Montenegro aqui em Fortaleza para esticar um pouco a conversa e trocar idéias, num gesto em que desdobramos nossas diferenças (de maneira saudavelmente tranqüila) e acabamos por descobrir muitas e muitas semelhanças, em se tratando da insistência de se fazer literatura ( poesia), publicar, divulgar, projetar, responder ao lugar de origem e, ao passo em que a conversa fluía, revelava que os impasses, os velhos e tão constantes, são os mesmos, esteja em Fortaleza, Recife ou Kandahar.

A se saber: Delmo Montenegro é poeta, ensaísta e tradutor. Nasceu no Recife (PE), em 1974. É autor dos livros de poemas ´Os Jogadores de Cartas´ (Recife: Bagaço, 2003) e ´Ciao Cadáver´ (São Paulo: Landy, 2005). Prepara atualmente a publicação do seu terceiro livro de poemas ´Épater le Noir´ (a sair no segundo semestre de 2008, pela Lumme Editor, de São Paulo). Nesta entrevista, um pouco do espírito inquieto de Delmo, quase abusado, mas incisivo e, principalmente, atuante.

1) Elementos visuais, grafismos, ideogramas, símbolos, arcaísmos, trânsito verbal, sonoro. O que mais cabe nos seus poemas? O que eles não suportam?

Trabalho sempre no limite da linguagem, testando novas configurações expressivas, novos designs para o pensamento. O que busco é a tensão constante. É preciso aprender e depois jogar tudo fora. Jamais acomodar-se, reinventar-se constantemente. Cada livro que produzo é o resultado deste esforço. No primeiro (Os Jogadores de Cartas, de 2003) pensamos num livro-atlas, que armasse um diálogo entre a Ilíada de Homero e Um Lance de Dados de Mallarmé. Os versos explodiam pela página. No segundo (Ciao Cadáver, de 2005) pensamos num livro-esquife, que trabalhasse mixando as invenções vocabulares de e.e. cummings com a ´angústia fraturada´ dos poemas ´da fase da loucura´ de Hölderlin e dos poemas terminais de Paul Celan. Em vez de uma explosão tipográfica pela página, um corte sádico, um corte cirúrgico nas sombras da palavra. A palavra-cadáver, a palavra-verso, vísceras expostas. Não à toa muitos enxergaram nesse livro a imagem especular pós-moderna de um Augusto dos Anjos redivivo (da mesma forma que aconteceu com a jovem poeta Micheliny Verunschk, no seu Geografia Íntima do Deserto, que foi comparada a João Cabral de Melo Neto sob um viés feminista). Tudo o que a minha aventura com a linguagem não suporta - o medo do diverso, do risco, do novo. Não faço literatura para seres covardes, acomodados. Busco sim o leitor em expansão, o leitor-criador, o demiurgo, o agente faústico. Minha literatura não faz concessões a idiotia das massas. Eu quero o leitor inteligente.

2) Você se apropria de elementos das vanguardas, mas, de certa forma, você aproveita para ironizar a própria idéia de vanguarda. Como se você as consumisse, levando-as ao excesso. Parece devorar-se a si. É esse o jogo e o risco?

Reduzir minha literatura a sua filiação ou não aos movimentos de vanguarda é querer encapsulá-la num jogo colonialista superficial. As vanguardas, enquanto propostas ideológico-políticas, já se esgotaram há muito tempo. Só podemos retomá-las pelo viés crítico, pelo viés irônico, arrancando-lhe as máscaras. No limite extremo, há um sentido épico e religioso no Nazismo que o aproxima do conceito de Obra de Arte Total do Teatro de Bayreuth. E isto é terrível. Terrível, porque profundamente verdadeiro. Porém só quem vivenciou esta angústia pode fazer a crítica da cultura dos postulados dominantes da arte do século XX. As metáforas militares, as metáforas de poder, sempre permearam os instrumentos eurocêntricos de estudo e dissecação da língua - verbo, sintaxe, regência, etc, todas são expressões de origem militar - o próprio termo página, do latim pagus, carrega essa idéia de territorialidade, de espaço de posse, de espaço de luta. O local da página sempre visto como um local de combate. A própria idéia de uma literatura de infantaria, de avant-garde, nada mais é do que a radicalização explícita desses movimentos de autoridade. Minha literatura aposta na diversidade, no outro, na polissemia dos sentidos, no extravasamento das normas. Não há pontos de fuga ou uma teleologia de fundo místico onde escoro as minhas verdades. Todas as minhas verdades são transitórias. Não aposto numa ideologia da História. Diante de Heráclito, cai o edifício do poema cósmico de Parmênides.

3) Como é desenvolver uma poesia com uma alta carga simbólica ( ou seria sígnica?), cifrada ao excesso, com um suporte alicerçado no experimentalismo e na fragmentação num lugar onde as exigências por uma idéia de identidade, pertencimento, tradição são tão caras como é Recife, Pernambuco, Nordeste.

Quem escreve no Recife tem, de cara, de enfrentar o peso gigantesco de duas esfinges: Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Como um jovem escritor sobrevive a isso sem ser esmagado? A melhor resposta que pude dar a isso foi montando a antologia Invenção Recife (organizada em conjunto com o poeta Pietro Wagner). Nela pude mostrar um pouco da fantástica diversidade poética produzida por Pernambuco nos últimos 20 anos. De forma alguma nos sentimos oprimidos pelo passado ou estamos acomodados a qualquer forma de tradição. Nomes como Frederico Barbosa, Fabiano Calixto, Micheliny Verunschk, Jussara Salazar, Heron Moura, Jomard Muniz de Britto, Paulo Bruscky etc, estão aí para mostrar. Sem fechar-se num dogma estético, esta corrente retoma a linha evolutiva da poesia pernambucana (Pós-Segunda Guerra Mundial) de nomes como Joaquim Cardozo, Pedro Xisto, César Leal, José Laurênio de Melo, Sebastião Uchoa Leite, Jorge Wanderley, etc.

4) Como você lida com a idéia, ainda, de ´eixo cultural´, impondo um trabalho a partir da distância desse lugar estabelecido? Não ir, estar num longe. Que carga de significado é possível construir a partir deste fora?

Minha resposta a isso se deu através da revista de literatura Entretanto (distribuída nacionalmente pela Ateliê Editorial), da qual sou o editor, em conjunto com os escritores pernambucanos Marcelino Freire, Micheliny Verunschk, Fabiano Calixto e Raimundo Carrero. Nossa meta foi construir uma publicação, centrada no Nordeste, que pudesse ser a ´outra voz´, o ´discurso estrangeiro´ em relação aos grandes centros hegemônicos de produção e difusão editorial. Uma revista que pudesse disputar, tanto do ponto de vista gráfico, como de conteúdo, de igual para igual com as melhores publicações do Sul/Sudeste. Um publicação que fosse parte ativa na construção da chamada ´literatura brasileira contemporânea´. Não queremos ser passivos. Não queremos esperar convites. Depois da publicação do primeiro número, tivemos uma ótima recepção, com destaque para participação da nossa revista em eventos como o ´Impressões Pan-Americanas´, da Fundação Cultural de Curitiba (PR) (um evento que reuniu diversos editores e escritores para debater sobre as revistas de Literatura e Arte das Américas - dividimos nossa noite com o Leo Felipe Campos, representando a Plátano Verde da Venezuela) e o ´Tordesilhas - Festival Íbero-Americano de Poesia Contemporânea´, realizado na Caixa Cultural (SP) (um festival que reuniu escritores de diversas partes do Brasil, de toda a América Latina, além de Espanha e Portugal). Gostaria também de destacar a presença no primeiro número da Entretanto dos poetas cearenses Eduardo Jorge e Virna Teixeira, nomes que estão, sem dúvida, entre os mais importantes da nova safra dos poetas brasileiros. No segundo número pretendemos publicar trabalhos dos poetas Carlos Augusto Lima e Diego Vinhas.

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