Matéria-517829

Carlos Augusto Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:40 · 07.03.2008
Aprender a ser livre como um lugar do poema possível

Na grande maioria das vezes, falar ou ter que lidar com a poesia brasileira contemporânea é ter que atravessar determinados terrenos arenosos e, quando não, absurdamente densos de sentimentos e ressentimentos, estes últimos em escala sempre maior. Muitas vezes também é ter que constatar algumas práticas corriqueiras, entre intencionais, políticas, estratégicas, entre uma quase ingenuidade, mas que dizem muito do que é produzir literatura, não só o poema, mas suas outras possibilidades.

Uma me chama atenção especialmente: a idéia de estar num determinado lugar, geográfico, conceitual, poético e tomá-lo como espaço da troca, verdade e inclusão. Um lugar que sugere uma determinação de pecha, rótulo, como se produzir literatura fosse conseguir uso de marca e confeccionar uma programação visual a ser exibida em prateleira. Hábito comum a que estamos sujeitos. Toma-se sentido reproduzi-lo e alimentá-lo quase sempre. Tomar aquele lugar como o único lugar da verdade, do poema, da crítica. Volto a pensar nesta ingenuidade, de como caímos desde cedo nessa teia, de ser um lugar. O pior de tudo é quando nos obrigamos a ter que dar uma resposta de retidão que seja a esses lugares e pessoas, para depois dar um passo além, ou fora, estar num outro trânsito. Como funciona? Se é que funciona. Como empreender uma jornada que recorte uma outra possibilidade de pensar o poema desprendido das respostas que nos obrigam ou nos obrigamos sempre a dar?

Penso nessas coisas a partir de dois livrinhos recém lançados, da autoria de dois autores jovens, que trilham dois caminhos, cada um a sua maneira, como se buscando, de maneira não intencional, outros motivos que se desgrudam de alguns lugares estabelecidos, seja na idéia do poema, ou no próprio ato de publicar.

1 - Sangüínea (Editora 34) é o mais novo livro do poeta Fabiano Calixto, pernambucano, criado no ABC Paulista, um dos nomes mais importantes da poesia brasileira recente. Seu primeiro livro, o semi-artesanal Algum, data de 1998 e, dentre outros, ainda publicou Música Possível (Cosac Naify/ 7 Letras, 2006). O trabalho de Fabiano tem-se estabelecido num crescente, de formas e idéias, com um vínculo, sempre que possível, no experimentalismo, e se firmou de longa data com um traçado que dialoga com uma concisão de linguagem (exaustivamente trabalhada por uma leva de jovens poetas durante algum tempo da poesia dita contemporânea, tornando-se um daqueles rótulos que mencionei acima), mas, sem nunca, deixar de lado um recorte carregado de lirismo e espanto diante das coisas do mundo, do país, marcado por uma tensão própria dos grandes centros urbanos.

A inquietude parece ser uma possível identidade para este novo trabalho. Sangüínea é um livro múltiplo onde Fabiano Calixto se apossa de uma variedade de formas e combinações poéticas propondo uma linha que não há linha, uma regularidade no irregular. Todas as combinações parecem possíveis, entremeando a poética mais construtiva que por sua vez se desmonta (ou monta-se) nos versos mais convencionais, medidos, que encontra um barroquismo de linguagem e outra hora transfere a palavra para uma absurda simplicidade, doçura, afeto de sentidos. Fabiano parece querer desmontar as nossas expectativas diante de seu poema. Parece querer fazer perecer suas escolhas anteriores, não dar as devidas respostas cobradas, embora já se denuncie uma outra conformação, uma vontade de se colocar num outro lugar. Mas tudo soa aparente. Fabiano Calixto não quer saber de nada que não seja libertação. Sangüínea é um livro de passagem, gosto de pensar assim. Não trato ainda um lugar de chegada (nem acho que deve haver isso) para sua poesia, mas, acima de tudo, o livro se confirma na sua transitoriedade, no que é falho, incorreto, mas absurdamente verdadeiro. E isso não pode ser tomado com um dado de aflição diante do poema, mas como a certeza de que o trabalho de Fabiano Calixto é orgânico, pulsante, não-estéril, mas vivo, nem que seja para nos incomodar. E isso é muito importante.

2 - O poeta mineiro Bruno Brum se apropria do poema primeiro enquanto livro, coisa e matéria. Cada (Lira, 2007) é seu segundo livro, livro bonito, com projeto gráfico e ilustrações tramadas pelo próprio Bruno Brum, que se afina no trânsito entre poesia, design gráfico, artes visuais. Cada traz uma beleza digna de nota na sua concepção visual, é preciso que se afirme, coisa de quem conhece e cuida. O livro é delicado como seus poemas, muitos deles breves, donos de tiradas e máximas, do chiste misturado com erudição, como se brincasse. Há um quê de ingenuidade e soltura, um quase desgaste, um passeio por formas recorrentes, traçados e concretismos aqui e acolá, mas nada disso para dizer a verdade importa. O que importa é que as coisas funcionam. O que importa é que Bruno passeia levíssimo, rouba coisas daqui e dali, sabe o que diz e confirma a fala. E rouba o fogo da alegria, pois, como já disse, Bruno brinca, mas brinca com coisa séria que é o poema.(Será?) Cada está no rol desses livros que não precisam prestar contas com os senhores do destino, com este artigo, nem menos com aquele ou aquele outro lugar. Sua liberdade é o lugar do poema possível. Bruno Brum não discute. O que pintar, ele assina.

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