Batista de Lima

Fortalezamada

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 11.11.2013

É difícil falar sobre a Fortaleza de hoje sem se angustiar, principalmente, quem viveu a Fortaleza de ontem. Há mais de 70 anos habito esta cidade e ela me habita. Assim como dizia Antônio Girão Barroso, também "sou grávido de ti, Fortaleza". Hoje essa gravidez é de risco. Minha cidade descabelou-se, encheu-se de estrias e envelheceu sem ficar idosa. Não consigo mais retê-la nos meus afetos nem sonhá-la nos meus delírios. Liquidamente ela vai se esvaindo por entre a ineficácia dos meus dedos que acariciavam suas madeixas louras que o sol desposou. Não caibo mais nela, tampouco ela cabe em mim. Perco meus braços nos nossos abraços. Não sei mais como amá-la como um dia a amei.


Sempre gostei de suas praças como se fossem partes nuas de seu corpo urbano. Com o tempo elas ficaram como se fossem, mesmo não sendo. Hoje são pardieiros, poleiros, mafuás de ambulantes e covil de descuidistas. Os cinemas na Praça do Ferreira fecharam as portas. Não há como assistir aos filmes do São Luiz, principalmente aqueles dos festivais de aniversário. O Moderno e o Majestic queimaram com os filmes de faroeste. E o Diogo, ali pertinho, perdeu a graça desde o tempo em que deixou de exibir seus filmes de arte nas manhãs de sábado. Como éramos sabidos e não sabíamos. Bergman, Bunuel e Godard nos invejavam. Só faltavam sair por detrás das telas para nos darem as mãos e cirandar.

Terminados esses filmes, era irmos à feijoada do Ceu, ali no Benfica, onde Mao era bem servido como sobremesa. Isso tudo antecipado com umas bicadas no Buraco do Reitor, para abrir o apetite. À noite, tertúlia no Maguary, em que a brilhantina se unia ao laquê e os corações pulsavam com o fundo musical de Ivonildo e seu Conjunto. Domingo era praia, biquíni e umbigos em flor. Éramos donos das praias que hoje são de barraqueiros e de mais ninguém. À tarde do domingo, futebol, em que só apanhava, a mãe do juiz, que ficara em casa.

Dia desses vesti aquela velha calça Lee e saí por aí tentando encontrar aquela Fortaleza que (na)morei por bastante tempo. Não esqueci os sapatos cavalo de aço e a camisa volta ao mundo e aquele sinto com medalhão do Sig do Jaguar, comprado após reclame do Pasquim. Fortaleza não me viu passar pelas ruas, ela respira muito alto, pelo trigésimo andar e olha para patamares cada vez mais altos. Não encontrei a Praia do Shampoo ali nas imediações da Santa Esmeralda e da Tatarana. Na Noa-Noa senti a falta da musa para a dança de rosto colado.

De volta fui pegar um peixe à delícia no Lido e encontrei um arranha-céu de cimento e aço. Nesse tour pela pele de minha cidade, encontrei muitas feridas brabas, verdadeiros cânceres lhe corroendo o corpo. Fortaleza hoje é uma dor suspensa nas marquises, seus olhos para o mar encontram uma barreira de prédios e seu flerte com o Atlântico é apenas uma lembrança. Esta cidade de hoje, demente, quer também minha demência. Entretanto vou escovar meu velho jaquetão, arranjar um convite com alguma amiga para a festa de término de curso da Escola Normal, no Clube de Regatas, em que dançaremos ao som dos Brasas 6. Se não der certo me contento com o Núcleo dos Ferroviários onde Os Jovens estarão guitarrando até meia noite.

Depois do término das festas, é preciso decidir seu coroamento com o churrasco do Alicate ou caldo de cabeça de peixe do Alfredo. Em épocas outras, era possível aos domingos frequentarmos as tertúlias do Clube Líbano onde os Faraós nos colocavam para dançar um verdadeiro Rock pauleira. Aos sábados era escolher entre os clubes Valdemar Falcão, no Álvaro Weyne; o Internacional, no Monte Castelo; o Romeu Martins, na Itaoca; o Mênfis, no Antônio Bezerra, o América, na Dom Manoel; o General Sampaio, na Av. da Universidade.

Aqueles amigos mais corajosos e concupiscentes às vezes optavam por programas mais apimentados nos lupanares que existiam na cidade. Fascinação, Jangada, Pigalle, Oitenta, Guarani, Chaguinha, Santa eram casas do prazer e do perigo pois as doenças venéreas eram um desembocar no Almeida com métodos medievais de cura. Era uma Fortaleza sem máscara, sem torcida organizada, sem assaltos a mão armada, sem engarrafamento, sem lei seca, no máximo usava-se lança-perfume nos bailes de carnaval. Gritava-se torcendo nos concursos de misse, e só havia como jogo, Loteria Estadual e o Jogo do Bicho, vendido em cada esquina.

Estudar no Liceu era flanar por sobre casarões de uma belle époque que por aqui foi curtida. Ali naquela praça combatíamos a ditadura e por trás, no "Beco do rasga sunga", a rapaziada no segundo tempo da noite ia bolinar meninas que moravam próximo e trabalhavam nas casas das famílias. Era preciso provocar os Bombeiros e usar o ônibus do Oscar Pedreira dirigido pelo João Pilão. O carnaval na Duque de Caxias vinha com rei e rainha e se chamava corso. Nas missas das igrejas deixávamos nossos pecados. Terminada a celebração íamos pecar na praça em frente. Fortaleza perdeu aquela inocência, ou fomos nós que perdemos nossa cidade? Esta cidade está se tornando uma dor sem jeito.

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