Batista de Lima - Caderno 3 - Diário do Nordeste

COLUNA

Batista de Lima

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20.09.2011

Crestomatia em tempos de Tablet

Minha primeira reação diante da onda Tablet foi me desfazer de velharias em forma de livros, que mofam nas minhas estantes. Infelizmente o primeiro exemplar a ser levado à fogueira da modernidade foi uma carcomida Crestomatia, datada de 1948, já no seu 22º parto, digo edição, da Editora da Livraria do Globo, do famoso professor Radagásio Taborda. Como tenho outra mais "ponta de rama", da 28ª edição, de 1956, preferi o ritual de despedida, lendo um texto da mais nova, menos mofada e com menor possibilidade de inalação de fungos. Abri exatamente na página 272 onde está o poema de Luiz Guimarães, "História de um cão".

Esse poema, com 32 quartetos, começa assim: "Eu tive um cão. Chamava-se Veludo: / Magro, asqueroso, revoltante, imundo; / Para dizer numa palavra tudo, / Foi o mais feio cão que houve no mundo". Curioso, porque uma coisa tão abjeta mereceria tão longo poema, me pus a ler o resto. Descobri que o cão fora deixado por um amigo em viagem longa. Logo em seguida o novo dono o doou à mulher de um velho carvoeiro, mas na noite seguinte estava Veludo de volta para lamber os pés do seu segundo dono. Foi então que ele teve a ideia de jogá-lo em alto mar, e assim o fez. Voltou para casa e notou que sua medalha com corrente, lembrança da mãe, havia caído nas águas junto com Veludo. Sua raiva do cão aumentou. Acontece que um barulho na porta o despertou, era o cão sarnento trazendo à boca o colar do dono. Apenas a joia foi recebida, Veludo caiu morto.

Após a leitura, senti-me com dois veludos às mãos. Como salvá-los? Fui ler outros textos da velha Crestomatia. Primeiro, o belíssimo "Pátria", de Rui Barbosa. Dele também o texto "Aos moços". Depois li mais de uma vez "Velho Tema", de Vicente de Carvalho, para tentar colocar a felicidade exatamente onde eu estava. Não esqueci o "Soneto", de Camões, cujo último verso é: "Para tão longo amor, tão curta vida".

Esse belo verso camoniano foi dito por Moreira Campos para sua esposa Dona Zezé como últimas palavras quando estava falecendo. Foi aí que cheguei ao "Episódio de D. Inez de Castro", em que "Estavas, linda Inez, posta em sossego". Terminei por ler toda a Antologia, afinal esse é o mesmo nome para Crestomatia, que pode ser ainda: Seleta, Coletânea, Florilégio, Espicilégio. Todos esses nomes em perfeito Português. Digo isso porque mesmo aderindo à nova onda, não entendo a razão do livro eletrônico ter que se chamar de "Tablet". O aluno vai estudar Português em um livro cujo título vem em Inglês. Será que não há em nossa língua, falada por mais de trezentos milhões de pessoas, em sete países, uma palavra para nominar o novo livro? Poderia ser "Tablete", ou ainda "Livro Eletrônico". Poderia ser até "Biblivídeo", "Letroluz", "Catatexto", "Tabuacesa", "Computexto", "Tubuléxico", "Pranchensino". Isso porque o nome estrangeiro para o nosso livro didático é certificado de humilhação para a nossa Língua mãe.

Mesmo se sabendo das boas intenções do Ministro da Educação em adotar a nova tecnologia para substituir o livro didático nas escolas públicas, é bom criar um nome adequado para titulá-lo. Aliás, uma outra questão se me coloca com relação à leitura do aluno. Será que ele vai se limitar a ler o que está gravado na maquininha? Se ele quiser ler o último lançamento do Rubem Fonseca, vai estar lá? Será que a maquininha vai ter nas suas entranhas toda a Literatura Universal disponível para o aluno? Leitura de livros é como um banquete, cada um escolhe aquilo que agrada mais seu paladar. Se o professor me impõe "Iracema", para ler e eu quero ler "Minas de Prata", eu devo ler o Alencar que mais me apetece.

Penso, portanto, que a adoção do "livromáquina" não impede a permanência do livro tradicional. Nós temos a mania de só construir a modernidade sobre os escombros da tradição. Sabe-se que as duas podem conviver se ajudando. As novas tecnologias deverão ser consideradas como facilitadoras da aprendizagem. O exagero de sua utilização pode transformar nossas crianças em autômatos, sem iniciativa de criação pessoal. Todos os caminhos traçados possuem seus atalhos. Muitas vezes um atalho pode conter a salvação de um viajante.

Assim sendo, vou conservar minhas Crestomatias, minhas gramáticas antigas, minha Carta de ABC, minha Tabuada, meu velho Dicionário do Gustavo Barroso. Vou promover a convivência do novo "eletrolivro" com um exemplar bem antigo da Bíblia Sagrada, onde vez por outra me achego para ler o Apocalipse, de São João. E que os estudantes dos novos tempos não esqueçam que depois de tudo isso ainda existe uma figura mais importante do que tudo numa sala de aula, é o professor. O professor é ainda um temperador de conhecimentos com pitadas de afeto. Afinal, o afeto que falta em casa o jovem procura fora dela. A pedagogia do afeto jamais declinará diante das mais sofisticadas tecnologias.

Por isso, que em tempos de Tablet, não podemos prescindir do livro, tampouco do professor. A minha biblioteca, com dois mil cães sarnentos, cada um como uma "Inez posta em sossego", estará sempre sendo ressuscitada, pois tenho certeza de que no fundo dessas páginas mofadas ainda posso encontrar os colares dourados que a vida pode ofertar.

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