Coluna

Batista de Lima: uma escola de múltiplos saberes

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 10.10.2017
 

A Escola de Saberes de Barbalha, ESBA, promoveu, de 12 a 16 de setembro, o I Encontro de Artes e Saberes do Sertão. Foram cinco dias de arqueologia em que o patrimônio mítico e místico dos nossos sertões foi revirado por pesquisadores, mestres da cultura e o povo em geral. O foco principal dessa prospecção se deu no vale caririense que retém um manancial de possibilidades arqueológicas. Essas possibilidades se espraiam pela dimensão de superfície, com o vale exuberante, na sua fauna e na sua flora, que coroam a Chapada do Araripe e os contrafortes de suas escarpas.

A dimensão subterrânea sinaliza para um patrimônio paleontológico em que peixes que se anteciparam às gentes comprovam que aquela terra um dia foi mar. É entretanto a dimensão simbólica, que reveste o Cariri mitológico, que se mostra inesgotável diante dos olhares papiradores dos pesquisadores e curiosos. Esse Cariri tem saberes brutos que precisam de lapidação e tempero para que se entenda porque a terra é simbólica, salpicada de lendas, mitos e tragédias cristalizadas no tempo.

Foi assim que nesse encontro, organizado pelo caririólogo Rosemberg Cariry, com a parceria da doutora Juraci Cavalcante, oriunda do quadro docente da UFC, que as mais variadas tendências culturais da região foram evidenciadas. A Urca e a UFCA entraram com apoio, acolitadas pela Secult, pela Secite-CE e a prefeitura de Barbalha. Estabelecida a organização, estudiosos de nossos sertões, em especial do Cariri, juntaram-se em debates, palestras, comunicações e exibições artísticas. Foram cinco dias de efervescência cultural em que o Cariri foi visto e se viu nos seus potenciais culturais.

Nesse I Encontro de Artes e Saberes do Sertão, chamou a atenção dos participantes o empenho de Rosemberg Cariry em conseguir uma sede definitiva para a Escola de Saberes de Barbalha, ESBA. A Escola está, em definitivo, funcionando no prédio da antiga Penitenciária de Barbalha. É um prédio vetusto, de dois pavimentos, na convergência das ruas Senador Alencar com a rua dos Cariris, no Centro da cidade. O equipamento foi preservado e adaptado para um centro de cultura, inclusive com auditório.

Outra aquisição importante executada por Rosemberg foi a instalação de uma Biblioteca com milhares de livros voltados para a temática nordestina, principalmente.

Para isso ele conseguiu, por parte da família Espínola, a doação de todo o acervo do patriarca professor Hildebrando Espínola, que passou a dar nome à Biblioteca. Foi ele, além de professor universitário, pesquisador dos saberes do Sertão, tendo mantido contato com muitos personagens da saga caririense.

Assim sendo, estava armado um promissor cenário para um enriquecedor encontro. Os sertões estavam ali servidos com seus personagens carregados de lendas e mitos, prontos para narrarem e serem narrados. Música, teatro, artesanato, cinema, contação de histórias e muitas outras manifestações culturais foram servidas aos presentes, todas privilegiando a temática autóctone. Era possível assistir a um cantador de viola, ao lado de um doutor antropólogo, uma rezadeira, curando uma espinhela caída de um garoto triste, um edifício de mais de vinte andares ao lado de uma casa de taipa.

O Cariri é isso mesmo, um monturo de culturas. E nessa grande festa cariri foi possível encontrar o mundo encantado da Pedra da Batateira, uma Exposição do “Santo Sepulcro – Sublimes Peregrinos”, as feiras de cordel, uma Mostra Cariri de Cinema do Interior e “Os Caçadores da Arte Perdida”. Esse sarapatel cultural contou com tantas atrações que cinco dias foram poucos porque no Cariri essas manifestações ocupam 365 dias por ano. É preciso ter tempo para ouvir a Orquestra Armorial do Cariri, degustar a salada lírica do repente abraçado ao rap, e à cantoria de mãos dadas com a embolada.

Como diz o texto de abertura da Programação desse I Encontro de Artes e Saberes do Sertão, nossos ancestrais tiveram que percorrer “travessias de longa distância, sujeitas a solidões e a desafios de sobrevivência material e da alma”. Por essa terra passaram caçadores de índios, ambiciosos senhores sesmeiros, ciganos, almocreves e aventureiros que foram empurrando os índios, verdadeiros donos da terra, para procurar guarida em terras do Maranhão e do Pará. Agora opera-se o retorno desse povo expulso, através de seus descendentes, produtores de uma mestiçagem, que vem reconstruir e recriar o mundo Cariri através da arte e da reza.

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