Coluna

Batista de Lima: Rouxinol

Batista de Lima

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00:00 · 17.04.2018

Nossa irmã caçula acaba de chegar aos 60 anos. Ela faz parte de um grupo de oito irmãos nascidos entre 1949 e 1958. Nesse intervalo de nove anos, nossa mãe teve seus oito partos naturais, em casa, assistida apenas pela parteira e parenta que chamávamos de Mãe Jesus, por ser ela denominada de Maria de Jesus Moura. É curioso saber que esses oito irmãos, portando entre 60 e 70 anos, estão todos vivos e saudáveis, apesar da sobrevivência limitada pelo máximo de simplicidade econômica de quem nasceu e se criou no Sertão do Ceará.

Uns dizem que esse milagre tem ocorrido por uma questão hereditária, tendo em vista que a maioria dos ancestrais romperam os limites dos 90 anos. Há outros que afirmam que esse fenômeno se deve à rapaduridade que se incorporou no nosso crescimento. É que, por décadas, nosso avô materno manteve um engenho de rapadura, funcionando três meses por ano, a 100 metros de nossa casa. Assim consumimos, no nosso crescimento, muita garapa de cana, mel, batida, alfenim, rapa de gamela, em tempos de moagem, e muita rapadura pelo resto do ano.

Além dos produtos do engenho, tínhamos uma alimentação bem natural, toda forjada numa agricultura familiar. Isso sem contar o contato permanente com a natureza, os banhos duradouros no açude, as frutas colhidas maduras no pé, "a camisa aberta ao peito" no devassar das matas dos pés de serra. Todo esse conjunto de fatores contribuiu para uma vida saudável e consequentemente duradoura. É pena que a cidade grande nos engoliu e tenta a cada dia digerir o que de bom trouxemos daqueles anos e daquelas inesquecíveis paisagens.

Logo no surgimento dos primeiros filhos, apareceu Rouxinol. Chegou trazendo a fama de boa de leite e de portadora de maternal mansidão. Alojou-se no curral ao lado, e a cada menino que nascia na casa, ela tinha seu filhote em paralelo. Daí nossa mãe amamentava alguns meses e depois Rouxinol assumia o fornecimento do seu leite. Além de amamentar seus filhotes, ainda produzia para a família em torno de seis a sete litros de leite por dia. Era leite que às vezes até sobrava para a coalhada e outras vezes para a manteiga da terra, oriunda da nata em profusão. As crianças iam, pois, crescendo nesse mundo natural fortificadas com os dois leites vitaminados.

O leite de Rouxinol, branco e espumoso, era posto numa grande panela para ferver no fogão a lenha. Quando fervia e transbordava, desenhos se formavam nas beiradas do fogão, numa linguagem que só as duas mães conheciam. Enquanto os meninos bebiam o precioso leite, Rouxinol saía do curral e ia cumprir seu expediente nos pastos da roça em frente. Saía caminhando à frente de um cortejo em que o resto do pequeno rebanho em fila obediente seguia atrás. Se um filho já taludo se entretinha em algum pé de cerca, ela parava, emitia um berro de advertência até se recompor aquela procissão diária. À tardinha, no retorno ao terreiro largo, era preciso a passagem pelo açude em frente, para demorada beberagem. Ao chegar perto de casa, o cheiro de melosa e pastos atravessados recendiam de seu corpo mãe.

O leite que Rouxinol nos dava, e principalmente a coalhada, adoçávamos com rapadura, que depois de raspada, virava açúcar mascavo. O doce que vinha do sítio pela moagem e o leite, que do curral chegava, foram criando em nós oito, a força que vinha da terra e os laços que hoje nos ligam lá. Não precisa pois perguntar, depois de tantos anos corridos, de tantas dores doridas, e de tantas alegres lembranças, porque os irmãos mais que sadios, rodam o mundo, giram e voltam, sempre que o tempo lhes permite, para lamber aquelas doces memórias. Não foi só de pai e mãe, que se formou essa sustança, foi também do leite que do curral chegou, foi do mel que do engenho escorreu, foi do cheiro da tiborna em mistura com o perfume que da melosa fluiu, que temperaram nossas vidas e continua rendendo.

Aos 60 anos da nossa irmã caçula, pela primeira vez Rouxinol virou escrita, pois além do leite que nos forneceu de graça, ainda hoje seus descendentes povoam nossos terreiros. O som do seu chocalho fanhoso badala em nossos ouvidos e aquele seu caminhar ronceiro, em busca do pasto mais verde, vai grudado em nossas retinas. Ela nunca sonegou seu leite nem nunca reclamou da dormida em um curral descoberto. Tão ligada estava à terra que sua cor de terreiro às vezes a confundia com um morro pequeno andante. Outras companheiras que teve, de pouco leite e muita fome, não marcaram nossas vidas nem ficaram na lembrança. Rouxinol tinha bons modos e deu-nos lições sem pedirmos.

Um dia nossa mãe parou de ter filhos e Rouxinol também parou com suas crias. O doce do seu leite que vinha para nós na cidade também parou de chegar. Rouxinol ficou tão triste que buscou pastos nos longes. Pouco vinha ao terreiro para não se mostrar inútil. A velhice lhe pesava e a tristeza lhe crescia. Quando viu que a morte cruel farejava seus costados, retirou-se, de uma vez, do terreiro de nossa casa. Não queria que a víssemos nos seus sofrimentos finais. Foi assim que se recolheu no mais escuro socavão da serra e faleceu escondida e só, numa Sexta-feira Santa. Nosso pai procurou por dias Rouxinol e seu cansaço e só no Domingo da Ressurreição a encontrou morta mas translúcida debaixo de uma oiticica. Nosso pai verteu uma lágrima, que nós ainda imitamos, com tanto tempo passado.

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