Coluna

Batista de Lima: Regina Fiúza e "O Pão" do espírito

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 22.05.2018

A Padaria Espiritual durou de 1892 a 1898. Teve como órgão divulgador de sua produção escrita o jornal O Pão. Esse jornal foi editado por 36 números e teve sua distribuição em Fortaleza, onde era confeccionado, pelo resto do Brasil e em Portugal. Como órgão ligado à Padaria Espiritual, possuía o seu mesmo tom de crítica ao atraso das instituições, principalmente ao conservadorismo da época. Assim como a Padaria Espiritual foi idealizada por Antônio Sales e seus companheiros "padeiros", o jornal teve também a mesma origem e como órgão divulgador dos "padeiros" chegou até nós através da conservação de seus arquivos.

A Padaria Espiritual teve uma repercussão tão grande em sua época, que alguns autores escreveram livros sobre sua inusitada existência. Primeiro foi Leonardo Mota com "Padaria Espiritual", de 1938. Depois foi Sânzio de Azevedo, o maior especialista no assunto, com trabalhos publicados, destacando-se entre eles sua tese de doutoramento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e que traz o título de "A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará". Acrescente-se aos dois, o livro de Regina Pamplona Fiúza, "O Pão? da Padaria Espiritual", resultado de sua dissertação de mestrado também pela UFRJ, publicado pela Expressão e Gráfica Editora em 2011.

A pesquisa de Regina Fiúza, mesmo priorizando o jornal O Pão, trouxe novidades sobre a existência da Padaria Espiritual e sobre seus padeiros. É evidente que Antônio Sales era o líder do movimento, mas há padeiros, que o secundaram, que tiveram papel importante na entidade. Sabino Batista, o Sátiro Alegrete, além de ser gerente do jornal O Pão, foi quem manteve correspondência permanente com Antônio Sales, a respeito da Padaria e do jornal, enquanto este esteve por quase duas décadas no Rio de Janeiro. Outros destaques de liderança do grupo são atribuídos a José Carlos Júnior, o Bruno Jaci, e Rodolfo Teófilo, o Marcos Serrano. Isso demonstra que, apesar da liderança de Antônio Sales, o Moacir Jurema, outros padeiros muito se empenharam para o sucesso da Padaria.

O prefácio desse livro, que é da própria autora, traz as fontes da pesquisa bibliográfica que foi feita para a elaboração de sua dissertação de Mestrado. Bibliotecas e arquivos do Ceará e do Rio de Janeiro foram vasculhados na busca por informações sobre a Padaria Espiritual e seu órgão de divulgação, "O Pão". A autora pesquisou na Biblioteca Nacional, nas bibliotecas da Faculdade de Letras da UFRJ, da Academia Cearense de Letras, do Instituto do Ceará, da Faculdade de Letras da UFC, da Casa de Juvenal Galeno e do Arquivo Público em Fortaleza. Coletado todo o material dessas fontes, a autora elaborou seu texto que a credencia como meticulosa pesquisadora.

Na primeira parte do livro, ela elabora um esboço do que representou aquela década de 1890 a 1900 para a Literatura Cearense. Além da Padaria Espiritual (1892), outros grupos, ligados às letras, funcionaram à época. O Clube Literário (1886) estava em evidência, com ele, funcionando a revista A Quinzena. O Instituto do Ceará vinha funcionando desde 1887. A Academia Cearense e o Centro Literário, com sua revista Iracema, passaram a funcionar a partir de 1894. Assim, essas cinco instituições estiveram funcionando ao mesmo tempo em uma Fortaleza que se aformoseava em torno dos eflúvios advindos de uma Belle Époque que respingou por aqui.

Esse período de uma década pode ser visto também como uma catarse do trauma passado pela cidade de Fortaleza e o resto do Ceará diante da tragédia que foi a seca de 1877 a 1879. Naquele período terrível, a maioria dos escritores da Padaria Espiritual estava entrando na adolescência, quando o flagelo dizimou grande parte de nossa população. Esse é um ângulo que ainda não foi devidamente estudado na nossa historiografia. Também não é objetivo do livro de Regina Fiúza, tendo em vista que seu norte gira em torno do que representou O Pão para a Padaria em particular e para a sociedade em geral.

Por isso é que a autora, de forma criteriosa, debruça-se sobre "O Pão" e apresenta a origem do jornal, a finalidade, o sistema de divulgação, os anúncios e o intercâmbio. Depois elabora um sumário geral mostrando o que foi editado de poesias, contos e crônicas, crítica literária e até romance. Já com relação aos assuntos, ela afirma que foram: literatura, ciência, direito, religião e música. Essa abordagem feita com tanto zelo por Regina Fiúza tem sua motivação particular. É que ela vem a ser bisneta de José Carlos Júnior, que foi o segundo Padeiro-mor do grêmio, nascido no Café Java, que ficava situado na Praça do Ferreira e era propriedade de Mané Coco.

O jornal O Pão teve a duração de quatro anos, de 1892 a 1896. Foi desativado, portanto, dois anos antes do encerramento dos trabalhos da Padaria Espiritual. Mesmo assim foi o principal canal de divulgação do grêmio literário. Depois dele vem a coleção das Atas das reuniões da Padaria, editadas em livro recentemente. Entretanto foi no jornal em que se fixou a pesquisa de Regina Fiúza. É uma pesquisa que veio aumentar o acervo bibliográfico em torno do assunto. São tantos dados que a obra se configura um documento credenciado acerca do que foi aquele jornal. Por isso que com essa pesquisa a literatura cearense se robustece no panorama nacional porque a autora trouxe à tona ingredientes sobre a Padaria que ainda permaneciam alheios aos olhos do grande público.

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