Coluna

Batista de Lima: Os sonetos de Dimas Carvalho

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 09.01.2018

O soneto é um poema de forma fixa. Assim sendo, sua feitura requer além da inspiração, bastante transpiração. Há quem diga que o trabalhar esse tipo de poema já é tudo. O Parnasianismo foi farto no cultivo de sonetos e sonetistas. Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Vicente Carvalho e Olavo Bilac se tornaram os mais festejados poetas dessa fase da Literatura Brasileira. Deixaram um legado de poemas tão bons que figuram nas principais antologias nacionais.

Isso, no entanto, veio a ocorrer no final do século XIX e início do século XX. Com o surgimento do Modernismo de 1922, o soneto ficou um pouco esquecido, retomando fôlego com a Geração de 1945. Essa retomada pouco perdurou tendo em vista o surgimento das manifestações concretistas em São Paulo e neo-concretistas no Rio de Janeiro. Acontece que entre os que fazem a Literatura Cearense ainda são lidos os sonetos de autores como Artur Eduardo Benevides, Cruz Filho e Otacílio Colares, representantes daquela Geração dos anos 1940.

O que impressiona é encontrar nos dias atuais, jovens cultores desse tipo de poema. É o caso de Dimas Carvalho que em pleno 2017 nos presenteia com uma coletânea de 55 sonetos. Isso leva o leitor curioso a se munir de "régua e compasso" para a medição de sua métrica. Mas é perda de tempo, pois esse poeta do Acaraú não foge à luta e trabalha com afinco e talento belos sonetos bem comportados em suas formas. Até parece que esse ainda jovem poeta esteja no grupo dos já citados sonetistas de outros tempos.

Dimas Carvalho titulou o livro de "55 sonetos" e colocou-o na Expressão Gráfica e Editora que realizou um bom trabalho de edição. A ideia do número 55 veio a partir dos personagens a quem o livro é oferecido. No caso, seu pai, José Pacífico Muniz (1925 - 1980) e Luís Vaz de Camões (1525 - 1580), ambos mortos aos 55 anos. As presenças do pai e do vate genial português são detectadas ao longo dos poemas, o que lhes dá, em alguns casos, um tom elegíaco subjacente. E então o leitor perspicaz vai encontrar maravilhas poéticas que impressionam.

Primeiro surgem metáforas que eclipsam a metrificação. "Meus navios sem rumo naufragaram / num Oriente ao oriente do Oriente". Logo em seguida aparecem uma "lua angustiada", um "silêncio que estendeu suas asas", o "ovo da noite", uma "caravela construída de vento e de marfim", um "anjo feito de lama e de capim" e "as águas de um silêncio rancoroso". As metáforas, que aparecem em grande quantidade, encantam o leitor que termina por esquecer a esmerada metrificação e o compromisso do poeta com os cânones em torno do burilamento da forma.

Essa forma gira preferencialmente em torno de versos decassílabos, trazendo, em casos especiais, rimas em ABBA ABBA CDC DCD. É o caso dos sonetos 9, 10 e 17, cuja ossatura está nos conformes dos clássicos desse gênero literário. Esses três sonetos podem ser considerados o ponto culminante do livro. O leitor então chega, ao final da coletânea, satisfeito com tanto sabor metafórico com que se deparou. Mas não terminou, afinal o último soneto apareceu como o coroamento de toda a obra. Glorificando os grandes poetas antigos, Dimas esbanja talento nesse texto antológico.

Nesse soneto, Cervantes aparece "cego de um braço". Também nele são cantados Milton, Borges, Homero e Byron, todos guiados por Camões, "poeta cego, herói cego", que só não via com o olho são na claridade desperdiçada. Esse coroamento proporcionado pelo soneto 55 nos remete a uma nova leitura do livro para de novo encontrar o pai do poeta, Camões e a casa com sua arquitetura de conforto que de tijolo e cal foi se transformando em um monumento verbal ao longo do livro. Mas não é uma casa de tijolo e cal, é uma nave construída de quatorze versos, com dois quartetos e dois tercetos em que o poeta se aloja.

Essa viagem de Dimas Carvalho, de braços com Camões, e acompanhado pelo olho do pai, por 55 estações, vasculha as reentrâncias da noite em busca de uma margem escondida. É então que o eu lírico transcende o arcabouço verbal bem urdido e a noturnidade do poeta cantor se une ao gênio do poeta cantado, numa poética em que uma catarse revela sua fala. Esse olhar para além das "águas do Escamandro e de Lepanto" confirma Dimas Carvalho, neste seu 15º livro, como a revelação poética cearenses desses últimos anos, em que a poesia, em especial, ganhou um adepto que transita do moderno ao clássico, do real ao fantástico, de forma reveladora.

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