Coluna

Batista de Lima: Os silêncios de Alan Mendonça

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 15.05.2018

Quarenta anos depois de vingar, Alan Mendonça ouviu o tempo batendo à sua porta e respondeu com o silêncio. Foi e tem sido um silêncio estridente desses que estilhaçam as vidraças e ferem a ousadia dos trovões. Alan forja e gorjeia palavras incandescentes. Extirpa as metonímias para tirar delas o que brotar de metáforas. É um artesão, esse filho de Fortaleza. Por isso que nos chega agora com mais um utensílio da sua oficina que traz o nome de "O silêncio possível". A editora chama-se Radiadora e o livro, em formato de bolso, necessita de uma carreta para transporte de seus conteúdos.

Esse silêncio superdimensionado é captado no prefácio de Léo Mackellene, leitor assíduo de sua poesia, além de parceiro musical. Para o prefaciador, a poesia é o único silêncio para Alan. A palavra é uma pletora em que o silêncio está gravado e termina por se manifestar. Daí que saudade e solidão assumem a maternidade da teimosia reveladora da poesia. Afinal, qual o poeta brasileiro que não cultiva uma saudade, que não é vítima de uma solidão? Não é pois de estranhar que enquanto a cidade dorme, o poeta trabalha, porque é nesse momento em que uma tristeza de nascença põe sua força a serviço da criação, como à procura de uma finalidade para o existir.

Diante dessa finalidade, o poeta revela o motivo do esforço que empreende para se manter pulsando. É a poesia. "O que posso ser nesse mundo é poeta/ porque traduzo em palavras/ toda a minha verdade que invento". De uma estrela refletida ou repousada numa poça de lama, surge a motivação para o nascimento da poesia. O mesmo pode evoluir de uma borboleta pousada em estrume de vaca. Aparentemente imagens simplórias, entretanto, grandiloquentes detalhes que o olhar dos comuns não consegue atingir. O poeta vasculha as preciosidades contidas nas coisas mais simples. É então que um vasto mundo desconhecido se descortina para o olhar único do criador poético.

Esse criador de imagens também retira das palavras, dimensões semânticas que nelas se escondem. Para isso ele desconstrói o signo verbal e elabora uma nova forma para a palavra. "Desvivo" é uma forma de viver morrendo. É o Tânatos atuando na existência do poeta e mostrando ao leitor que todos nós desvivemos enquanto vivos estamos. Esse caso não é único. Essa "despalavra" remete a outras desmontagens semânticas. Uma "desvida" habita o "desmundo das desalmas". É possível dessonhar desacompanhado como forma de demonstrar uma solidão companheira. A desmontagem das estruturas verbais é mais um artesanato a que se propõe Alan Mendonça.

Essa desmontagem é apontada no criterioso posfácio elaborado por Alves de Aquino, o conhecido Poeta de Meia Tigela. Alves de Aquino vai mais longe ao vislumbrar uma estética do retorno nesse poeta silencioso. Vê um lirismo transbordando do verso e "um fascínio mítico, arcaico, do imaginar, do compor; o querer viver além das grades, das gaiolas, dos freios". É tanto que, em certas horas míticas, Alan inventa distâncias para dispersão das horas, ao jogar o tempo para a frente. Portanto não é apenas pessimismo a dessalgar seu cotidiano. Por isso ele pula da escrita criativa à composição musical e depois à dramaturgia, galgando salvações porque acredita no que pode fazer para poder ficar. Seu olhar vai além da linha do horizonte.

Seu olhar consegue vislumbrar, na hora falsa do dia, "as cores suspensas que se desbotam e tudo quase que não é". Seus olhos fixos no sem jeito do mundo viam quando "o tempo esquecia dos meninos no relento". Seu olhar é igual ao "olhar exigente do maestro Picolé". Sua dança é igual ao "dançar desengonçado do Mané Caixadágua". Por isso ele não precisa perguntar se o menino ainda volta. Esse menino ainda volta. Esse menino já retornou à cena memorial montado no signo linguístico. Esse latifúndio se reconstrói quando a infância perdida renasce no verso.

Nesse retorno, o poeta verifica os desperdícios deixados pela trajetória executada. Por isso ele conclui que "se nascesse novamente/ admiraria mais fins de tarde/ cheiraria mais flores/ escreveria mais poemas/ acordaria mais cedo/ andaria mais a pé". Nesse roteiro, o que acaba sendo enfatizado é o fazer poético. "A poesia é uma mulher que se anuncia". Ela é morena, de olhos negros, desarruma a casa, tira o sono do poeta. A poesia é mal comportada. Mesmo assim ela é amada e cultivada, afinal o poeta revela sem cerimônia: "escrevo porque sinto dor". O fazer poético é dorido, parto selvagem que coloca o existir em deriva, pois põe o humano em um limiar onde a última esperança é a mão estirada do verso.

Finalmente, o poeta, nos píncaros do seu silêncio, raciocina: "pra que palavras? e palavras? e palavras? / que nunca dizem o tanto de mim?". É seu tributo ao silêncio, mas, ao mesmo tempo, é a contradição poética, que no seu desabafo, utiliza as palavras para dizer da importância do silêncio. Esse seu pessimismo chega a ser descrito no verso: "nada é a palavra mais próxima de tudo". Ao final conclui: "a terra / dormia / em / minha carne / e era / despalavra / o verso / no / azedume / do / silêncio". Esse desfecho leva o leitor a concluir que a poesia de Alan Mendonça é uma performance do seu eu lírico, que de tão pungente, revela-se uma catarse como se o poeta estivesse concluindo uma terapia.

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