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Batista de Lima: os 124 anos da ACL

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 04.09.2018

A Literatura Cearense tem se caracterizado, ao longo de sua trajetória, como um mutirão literário. Isso se comprova quando observamos os grupos literários que têm surgido ao longo dos anos, bem como seus órgãos literários divulgadores da produção desses grêmios. Há jornais e revistas que marcaram época nessa nossa evolução literária, sem contar o grande volume de livros editados que foram produzidos por cada um deles. O centro divulgador principal dessa fortuna literária tem sido Fortaleza, em detrimento da quase incipiente produção interiorana em que se destacam com muita distância quantitativa as cidades de Sobral e Crato.

Fortaleza, portanto, desde o surgimento de nossa literatura, com os Oiteiros, grupo liderado pelo Governador Sampaio, em 1813, não teve um período tão profícuo literariamente, como o que se estende de 1886 a 1897. Nesse período de uma década, surgiram em nossa Capital, o Clube Literário, 1886, o Instituto Histórico Geográfico e Antropológico do Ceará, 1887, a Padaria Espiritual, 1892, a Academia Cearense, 1894, e o Centro Literário, 1897. Evidentemente que outras instituições de menor porte também vingaram nessa década de ouro de nossa literatura, que coincidiu exatamente com o auge da pretensa Belle Époque tão propalada por alguns dos nossos intelectuais.

Dessas agremiações surgidas naquela época, permanecem em atividade o Instituto Histórico e a Academia Cearense de Letras. A Academia foi fundada em 15 de agosto de 1894. Portanto, acaba de completar 124 anos de fundação. Seu nome de nascimento foi Academia Cearense. O colo arfante de nossas praias, bordando os verdes mares bravios, testemunhou o surgimento dessa princesa dos saberes. Uma plêiade de intelectuais arrojados, naqueles distantes idos de agosto, no salão nobre da Fênix Caixeiral, fundaram essa agremiação literária. Entre tantos fundadores que ali estavam, destaquem-se: Guilherme Studart, Justiniano de Serpa, Farias Brito, Franco Rabelo, Antônio Augusto, Tomás Pompeu, José Carlos Júnior, Antônio Bezerra e outros.

Nestes 124 anos de existência, a Academia Cearense de Letras recebeu nas suas 40 cadeiras, 190 acadêmicos, sendo 177 homens e 13 mulheres. A primeira mulher a tomar assento naquele sodalítico foi Alba Valdez, em 1922, seguida de Henriqueta Galeno, em 1951, Cândida Galeno, em 1960, Noemi Elisa Aderaldo, em 1988, Marli Vasconcelos, em 1990, Rachel de Queiroz e Beatriz Alcântara, em 1994, Regine Limaverde, em 1996, Ângela Gutierrez, em 1997, Giselda Medeiros, em 2000, Natércia Campos, em 2002, Lourdinha Leite Barbosa, em 2013 e Révia Herculano, em 2018.

É bom saber que desde os tempos áureos da Grécia antiga, existem as academias. Tudo começou quando em Atenas o herói mítico Academo possuía um pomar chamado de Jardim de Academo, ou Academia. Naquele local, Hípias construiu um ginásio em que Platão instalou sua escola para doutrinar jovens. Nos tempos modernos surgiram academias pela Europa, destacando-se a Academia Francesa, fundada em 1635, cujo modelo serviu para as academias da América, inclusive a Brasileira e a Cearense de Letras. Assim, podemos concluir que a Academia Cearense de Letras, que agora chega aos seus 124 anos, continua voltada para empreender a arte literária sem esquecer aqueles mecenas que também lutam para manter acesa a chama da cultura.

A aniversariante homenageada, aos seus 124 anos, finalmente encontra seu habitat definitivo, o vetusto Palácio da Luz, unindo história e literatura numa harmonia admirável. Aquele casarão do saber que por mais de um século e meio serviu de templo do poder terreno vibra e exulta a alma do cearense que ali colocou aqueles que dirigiram a gente desta terra. Relicário memorável, nele ainda ressoam as vozes de uma centena de governantes que alçaram nosso Ceará ao patamar que hoje representa e agora a Academia Cearense de Letras, ocupante do casarão da história, trouxe para sua companhia várias outras entidades literárias para engrandecimento da nossa cultura.

Por ocasião desses seus 124 anos, em solenidade dirigida pelo Sr. Presidente Dr. Ubiratan Diniz Aguiar, foi homenageado o Dr. Lúcio Alcântara, ex-governador do Ceará, com a medalha Tomaz Pompeu, e com a medalha Barão de Studart, o Dr. Edson Queiroz Neto, Chanceler da universidade de Fortaleza, Dr.

Geraldo Luciano Matos, CEO do Grupo M. Dias Branco e Dra. Ana Maria Studart, vice-Presidente da Fundação Beto Studart.

Isso comprova que ali confraternizam-se as inteligências, cultiva-se a literatura e põe-se em prática o artigo primeiro do Estatuto em vigor: "A Academia Cearense de Letras tem por finalidade o cultivo e o desenvolvimento da Literatura, assim como da produção científica em forma de ensaio ou tratado".

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