COLUNA

Batista de Lima: O umbigo da lua

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 07.11.2017

Foi escavando a terra arenosa de Sipaúbas, que procurei o umbigo da lua. "Lua, luar, vem buscar esse menino para tu criar". Era a voz de minha mãe doando minha orfandade àquele sol de véu a que deram o nome de lua. Era sombria a noite e não havia pista da botija. Ali só encontrei restos de meu cordão umbilical enterrado por meu pai num dia qualquer de um maio. Mas Canlima, um tio que prosava com Deus, apontou a pedreira da serra e mostrou que era lá, entre cactos e mocós, que um dia brotou, entre macambiras, um vistoso umbigo cinza que despencara da lua.

Fui sozinho, e pela primeira vez, enfrentar o mistério da pedra e lá encontrei uma grande caverna escura com inscrições laterais. Havia um mapa que levava a um país distante em que índios ergueram uma pirâmide ao sol e outra à lua. Dizia que a maior e mais íngreme e vistosa era o caminho do sol, a outra mais baixa, mais delgada e mais escura, era o caminho da lua. Que aquela caverna ia dar àquelas pirâmides, eu sabia, mas precisava pedir luz a Canlima para não me perder nos labirintos das entranhas da terra. Ele me falou que fechasse os olhos e fosse em frente, sempre em frente.

Segundo aquele homem, que tomei como arauto, são os olhos abertos que confundem as criaturas. Tinha eu que ir com a claridade da mente que muito mais longe chega, quando tapamos os olhos. Foi assim que comecei minha jornada em busca do umbigo da lua, por cavernas nunca dantes rastreadas. Quando na dúvida do passo seguinte, meus dedos nas paredes de pedra decifravam mapas condutores e palavras de mistério. Por tempos não medidos, fui em frente e descobrindo gentes que me vinham condutoras de outroras. Vi Joaquim, vi Manolo, Maria e Caveru, numa mistura de gente de mesmo, com entidades misteriosas.

Caveru era o guia humano entre tantos seres de outras eras que se apresentavam puros uns, impuros outros. Eram criaturas que se fecundavam e se reproduziam à proporção que mergulhávamos naquela estranha caverna.

Dali surgiam seres que meu guia ia descrevendo e mostrando quanto aconchego ou rejeição eu devia dedicar-lhes. Havia um embate de Catrina com Xibalba, águia com serpente, Zeus com Cronos, luz com treva, do sacro com o profano, e de Deus com o diabo. Acontece que o campo de luta que encontraram para duelar foi minha mente atiçada e indecisa entre horácios e curiácios.

Caveru que se chama Carlos, acrescentado de Velazquez e Rueda, tem conhecimento de mundos e inframundos. "Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo só seria uma rima, não seria solução". Não seria porque no fim do túnel aparece Jung, mostrando que Velazquez atingiu a individuação por um processo de regressão que o levou a uma ancestralidade que lhe curou do abuso do real. Por um processo de subjetivação, ele partiu das partituras para chegar ao divino e ao maravilhoso, pela melodia que paira no universo e que só é captada por privilegiadas criaturas.

Velazquez foi parido sobre um monturo de mitos e ali começou a ciscar camadas sobre camadas num movimento arqueológico em que o México é muito mais subterrâneo que superfície.

Para chegar a ele nessa jornada subterrânea, partida de Sipaúbas, precisei garimpar suas "Mitologias para o século XXI". É um livro sacro que vem a ser profanado pelo meu olhar vesgo, por não ter as raízes profundas dos cacos do seu espojador primeiro, aquecido por cinzas vulcânicas e mitológicas do mundo asteca. Suas dicotomias míticas vão do bem ao mal, do meu mundo significante ao seu universo simbólico me dizendo que sou pequeno.

Sou pequeno por ser uno, por não tirar proveito das incompletudes que me farejam. Já Velazquez, nesse seu livro, manda que me aquiete, que eu vá primeiro treinar um fôlego de sete léguas para prospectar esse seu mundo simbólico. Ele apossou-se de um referente teórico chamado Jung e me deixou despido de lonjuras nas escanias desérticas sipaubenses. Não tenho cultivado arquétipos a não ser o boi que suicidou-se quando não entendeu a potência do "Aracati" que me chegava à noite, o fogo da fornalha do engenho do Taquari, e a água do açude velho, purificada pela urina de meus ancestrais produtores de suor e sangue.

Foi escavando a terra arenosa de Sipaúbas, que encontrei perguntas que se reproduzem nesse tratado arqueológico que transita do menino Carlos lá do México mítico ao "caveru.Com" dos deuses deste século de mãe Chica e pai João. Não ouso resenhar entranhas de retornos tão simbólicos. Nessas horas, nado e produzo cangapés, mas mergulhar nessas crateras vulcânicas das eras, só com esse mitólogo Carlos que pela música e pelo tino herdado dos antigos povoadores do México, viu um mundo para o qual não atino. Desculpe-me, Carlos, vou reler seu livro, vou treler, mas um dia eu chego lá, bem mais próximo da entrada dessa caverna. Um dia vou encontrar esse umbigo da lua, que desconfio que esteja agora bem mais perto de mim.

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