COLUNA

Batista de Lima: O pioneirismo de Alba Valdez

Batista de Lima

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00:00 · 12.06.2018

O Ceará é pródigo na produção de mulheres fortes e destemidas. Entre muitas podemos citar: Rachel de Queiroz, Jovita Feitosa, Dona Fideralina, Maria Tomásia, Elvira Pinho, Francisca Clotilde, Ana Miranda e Ana Facó. Nessa relação poderíamos acrescentar também Alba Valdez, cujo nome de batismo era Maria Rodrigues Peixe. Natural de Itapajé, Alba nascera em 1874. Retirante com sua família, por conta da seca, já em 1877 estava em definitivo em Fortaleza.

Alba Valdez teve sua formação intelectual e sua experiência de vida forjadas numa Fortaleza que passava por enormes transformações. Foi uma época em que ocorreram a libertação dos escravos e a proclamação da República. Teve também o aformoseamento da cidade, inspirado no que ocorria em Paris, e que alguns chamaram de nossa Belle Époque. Quanto à literatura, Alba assistiu ao nascimento de várias entidades literárias como o Clube Literário, a Padaria Espiritual, o Centro Literário, a Academia Cearense de Letras e o Instituto do Ceará. Além de assistir a essa empolgação cultural, Alba participou de algumas dessas agremiações.

Numa época em que predominava o comportamento machista na sociedade, Alba Valdez se impôs com suas atitudes feministas. Tendo sido discípula de Francisca Clotilde, dela recebeu tão forte influência que a marcou no seu comportamento de rebeldia. Clotilde, em 1902, lançara seu romance "A divorciada", que veio causar forte impacto nos meios conservadores da época. Para Alba, isso foi modelo para seu comportamento a partir de então. Sua atitude libertária levou-a a reivindicar assento na Academia Cearense de Letras, afinal, em 1901, já havia lançado "Em sonho? Fantasias", e vinha mantendo participação constante, com suas crônicas, em jornais locais.

Essa sua obra de 1901 vem a ser lançada em 2017 numa segunda edição, graças à parceria entre a Academia Cearense de Letras e às Edições Demócrito Rocha. Logo na orelha do livro, a editora Regina Ribeiro aponta que o livro "é quase um contraponto da Alba militante. Envolvidos num manto de introspecção, o amor, o onírico e a natureza dão forma à linguagem esculpida dos contos". Aliás, o livro é uma coletânea de contos e crônicas, talvez mais de crônicas em que sobressaem a natureza e algumas reflexões comportadas sobre perfis. A linguagem traz resquícios de suas leituras de José de Alencar. No total não há ligação entre a aguerrida Alba Valdez e seus escritos nesse livro.

Logo no início da obra, numa "Conversa com o leitor", José Augusto Bezerra, então Presidente da Academia Cearense de Letras, lembra que o livro fora traduzido para o sueco. Lembra também que além de ser a primeira mulher a ingressar na Academia, Alba também ingressou no Instituto do Ceará. Esse ingresso no mundo das instituições culturais do Ceará foi uma forma da autora se impor em um mundo comandado pelos homens e fechado às pretensões femininas. Alba Valdez, além de seu destemor e de sua capacidade intelectual, contou com a amizade que cultivava com Justiniano de Serpa que além de ter chegado a Governador do Ceará, foi quem reestruturou a Academia Cearense de Letras.

Também sobre esse livro de Alba Valdez, imperdível é a apresentação, dessa segunda edição, elaborada por Ângela Gutiérrez. Em 15 páginas, com o título "Em sonho: a escrita terna da libertária Alba Valdez", a apresentadora põe numa mesma análise, vida e obra de Alba. No texto é ressaltado o pioneirismo da militante escritora nas áreas da literatura, do jornalismo e da educação cearenses dos últimos anos do século XIX aos meados do século XX. Alba Valdez empunhou a bandeira dos direitos femininos na imprensa da época e nos discursos que proferia nas instituições de que participava. Assim era seu comportamento na Academia, no Instituto do Ceará, no Centro Literário, na Boêmia Literária e na Iracema Literária.

Antes de completar os 16 anos, Alba Valdez já se diplomava professora pela Escola Normal. Nos seus estudos, os dois professores marcantes para o resto de sua vida foram Justiniano de Serpa e Francisca Clotilde. Seu modo aguerrido e independente de se comportar foi bem mais uma herança desses tempos escolares. É tanto que ao se ver preterida da Academia Cearense de Letras na reestruturação de 1930, ela, ofendida com o descaso a que foi submetida, verberou na imprensa local de forma destemida. Isso porque a Academia local submetia-se às normas da Academia Brasileira de Letras, de não aceitar mulheres no quadro de seus sócios. Alba ficou fora mas reagiu corajosamente à injustiça.

Esse seu livro "Em Sonho? fantasias", agora reeditado, apresenta uma Alba Valdez já utilizando primorosa linguagem. A perfeita sintonia entre coesão e coerência textuais demonstra uma escritora com pleno domínio do código linguístico. Seu texto comprova a herança adquirido através das leituras demoradas em torno dos clássicos de nossa literatura, em especial do conterrâneo José de Alencar. Com sua tonalidade já concretizada, que se leiam "Noite Cearense", "Cair de folhas" e "A noite". O toque romântico impresso nos seus escritos chega até a transparecer quando traça perfis, como é o caso de "Auta de Souza" e outros textos similares. É inegável, no entanto, que ao falecer em 1962, no Rio de Janeiro, aos 88 anos, Alba Valdez não deixou apenas os escritos, mas principalmente o exemplo de polemista aguerrida e batalhadora diante das questões de gênero, numa época em que isso era quase impossível.

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