Coluna

Batista de Lima: O memorial nilosergiano

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 06.02.2018

Ao bater às portas dos setenta anos, Nilo Sérgio Viana Bezerra abriu seu baú de lembranças e escreveu sua história de vida. Aparentemente nada demais a contar um engenheiro que não gosta de engenheirar, um ex-deputado estadual de um só mandato e nada mais. Acontece que quem tiver a ousadia de abrir uma das 150 páginas de seu livro de memórias não vai parar de ler enquanto não navegar em todas elas, atrás de uma charanga pelas ruas de Várzea Alegre, ou serenateando nas noites enluaradas daquela cidade. Nilo Sérgio não pode reclamar da vida, afinal tem tirado dela o que de melhor se pode arrancar de uma existência.

Entre seus caracteres de destaque está a inteligência. Nunca precisou de estudar muito para ser o primeiro da classe. Garoto prodígio, precoce, irrequieto, falante, nunca fez pocumã nos telhados das conquistas: IBM, Embratel, eleição, sempre em destaque. Três filhos já adultos, uma mulher chamada Linda e a Várzea Alegre dionisíaca do Engenho Velho à Igreja de São Raimundo. Só faltava escrever um livro, e agora conseguiu colocar no papel esse retorno definitivo ao monturo de seus dias idos e bem vividos.

O título é "E a vida aconteceu: uma visita caótica e solitária ao passado. Fase 1". Não dá para entender porque é caótica. São fatos colocados em ordem cronológica, e todos absolutamente verossímeis. Quem o conhece sabe que tudo relatado aconteceu, apesar de muitas outras coisas não aparecerem no livro. Acontece que sendo essa a primeira fase da vida, que vai do nascimento ao casamento, o leitor fica torcendo para que as outras fases venham logo. É que sua atuação política na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará desperta imensa curiosidade e o coloca dentro da nossa história.

Além de sua atuação como Deputado, também desperta curiosidade seu trabalho em cargos públicos que ocupou. O leitor, entretanto, não dispensa a presença, em suas memórias, dos fatos inusitados que marcaram sua trajetória de vida. Eles estão quase sempre ligados ao seu gosto pela boemia. Um deles responde pela sua maneira curiosa de passar o carnaval no Rio de Janeiro. Fez concurso para a IBM, cujo estágio seria na Cidade Maravilhosa, em época que envolvia o carnaval. Passou no concurso, estagiou, brincou o carnaval e depois deixou o futuro emprego, voltando a Fortaleza para cursar engenharia.

O livro editado pela RDS Editora, em 2017, traz também painel fotográfico em que se destacam sua família, seus amigos de infância, adolescência e juventude, com destaque para Cléber Diniz, e os músicos que o acompanharam na boemia. Entre os instrumentistas de destaque aparecem Chico de Amadeu e Mestre Chagas, famosos em Várzea Alegre e arredores. Nilo Sérgio lembra nesse seu retorno à infância, o menino que brincava de "cinturão queimado" no oitão da igreja. Lembra as manhãs chuvosas de sua cidade natal.

Várzea Alegre é uma cidade em que as famílias tradicionais conservam o costume de se entrelaçarem, casando seus descendentes entre si. Isso faz com que surja uma comunidade harmônica em que a fraternidade é a marca registrada. Também fiel a seu nome, é uma cidade alegre de um povo feliz. Daí que Nilo Sérgio é um exemplo de tudo isso. Itinerante, adepto da brincolândia carnavalesca daquele povo, viu nascer o CREVA, Clube Recreativo Varzealegrense e as escolas de samba Unidos do Roçado de Dentro e Mocidade Independente do Sanharol.

Nilo Sérgio começou seus estudos em Várzea Alegre na escola de Dona Eliza, passou pelo Colégio Cearense, em Fortaleza, depois estudou no Colégio Diocesano do Crato, e formou-se em Engenharia Mecânica, na Universidade Federal do Ceará. No mesmo ano em que se formou, também se casou com Linda Lemos, da sociedade varzealegrense, na Igreja de São Raimundo, de sua cidade natal. Casamento histórico, oficiado pelo Monsenhor Vieira e pelo padre José Mota Mendes, ao som de violino de seu primo Nonato Luiz, instrumentista conhecido hoje internacionalmente.

Não se pode esquecer que o memorialista varzealegrense conta muitas passagens de sua vida nessa primeira fase que só lendo o livro para apreciá-las. Por isso que ao se declarar torcedor do Fluminense, conta sua façanha de estar no Maracanã na decisão do Campeonato Carioca de 1969, no dia 15/06 daquele ano, quando seu time foi campeão, vencendo o Flamengo, diante de uma plateia

De 171.599 pagantes. Depois transcreve crônica de Nelson Rodrigues, dramaturgo e jornalista torcedor do Fluminense, além de outros episódios no Rio como o Show de Elizete Cardoso, na Boate Sucata, ao lado de Otacílio Correia. Retrata também noitadas na Boate Senzala, em Fortaleza. Fato é que Nilo Sérgio comprova, ao escrever suas memórias, que tem estilo de escrita, um texto impecável inclusive quanto à ortografia, e o que é mais importante, tem muito o que contar. Por isso, que venha logo a segunda fase de suas memórias. O leitor aguarda ansioso.

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