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Batista de Lima: o guerreiro e a fé

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 20.01.2018

Henry James compara a experiência a uma imensa teia de aranha, espalhada a nossa volta - que é capaz de pegar não só aquilo que é necessário, mas também a poeira que está no ar.

Muitas vezes o que chamamos "experiência" nada mais é que a soma de nossas derrotas. Então, olhamos para frente com o medo de quem já cometeu bastantes equívocos na vida - e não temos coragem de dar o próximo passo.

Neste momento é bom lembrar as palavras de Lord Salisbury: "se você acreditar totalmente nos médicos, vai achar que tudo faz mal à saúde. Se acreditar totalmente nos teólogos, vais se convencer que tudo é pecado. Se acreditar totalmente nos militares, concluirá que nada é absolutamente seguro".

É preciso aceitar as paixões, e não renunciar ao entusiasmo das conquistas; elas fazem parte da vida, e alegram a todos que delas participam. Mas o guerreiro da luz jamais perde de vista as coisas duradouras, e os laços criados com solidez através do tempo: sabe distinguir o que é passageiro, e o que é definitivo.

Existe um momento, entretanto, que as paixões desaparecem sem aviso. Apesar de toda a sua sabedoria, ele se deixa dominar pelo desânimo: de uma hora para outra, a fé já não é a mesma de antes, as coisas não ocorrem como sonhava, as tragédias surgem de maneira injusta e inesperada, e ele passa a acreditar que suas preces já não são mais ouvidas.

Continua rezando e frequentando os cultos de sua religião, mas não consegue se enganar; o coração não responde como antes, e as palavras parecem não ter sentido.

Neste momento, só existe um caminho possível: continuar praticando. Fazer as preces por obrigação, ou por medo, ou seja, lá por que motivo for - mas continuar rezando. Insistir, mesmo que tudo pareça inútil.

O anjo encarregado de recolher suas palavras - e que é também responsável pela alegria da fé - está dando um passeio. Mas volta logo, e só vai saber localizá-lo se escutar uma prece ou um pedido em seus lábios.

Diz a lenda que, após uma exaustiva sessão matinal de orações no monastério de Piedra, o noviço perguntou ao abade se as orações faziam com que Deus se aproximasse dos homens.

- Vou respondê-lo com outra pergunta - disse o abade. - Todas estas orações que você faz irão fazer o sol nascer amanhã?

- Claro que não! O sol nasce porque obedece a uma lei universal!

- Então, esta é a resposta à sua pergunta. Deus está perto de nós, independente das preces que fazemos.

O noviço revoltou-se:

- O senhor quer dizer que nossas orações são inúteis?

- Absolutamente. Se você não acorda cedo, nunca conseguirá ver o sol nascendo. Se não reza, embora Deus esteja sempre perto, você nunca conseguirá notar Sua presença.

Orar e vigiar: esse deve ser o lema do guerreiro da luz. Se apenas vigia, vai começar a ver fantasmas onde eles não existem. Se apenas orar, não terá tempo de executar as obras que o mundo tanto necessita. Conta outra lenda, desta vez do "Verba Seniorum", que o abade Pastor costumava dizer que o abade João havia rezado tanto, que não precisava mais se preocupar - suas paixões haviam sido vencidas.

As palavras do abade Pastor terminaram chegando aos ouvidos de um dos sábios do mosteiro de Sceta. Este chamou os noviços depois da ceia.

- Vocês têm escutado dizer que o abade João não tem mais tentações a vencer - disse ele. - A falta de luta enfraquece a alma. Vamos pedir ao Senhor que envie uma tentação bem poderosa para o abade João; e se ele vencer esta tentação, vamos pedir outra e mais outra. E quando ele estiver de novo lutando contra as tentações, vamos rezar para que ele jamais diga "Senhor, afasta de mim este demônio". Vamos rezar para que ele peça: "Senhor, dai-me força para enfrentar o mal".

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