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Batista de Lima: o cajueiro de Bartolomeu Fagundes

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 26.06.2018

O famoso cajueiro ficava no centro de Fortaleza, numa época em que nossa atual metrópole só tinha mesmo poucas ruas e muita areia. Transcorria o ano de 1795, quando governava o Ceará, Luís da Mota Féo e Torres. Fidalgo e moço, apesar de correto, não agradou aos cearenses. É que diante da desorganização da pequena urbe, o novo mandatário queria pôr ordem no lugar. Daí os desentendimentos com o povo. A culminância do desassossego da população ocorreu quando ele resolveu derrubar o famoso cajueiro. É que muita gente se reunia à sombra da grande árvore e ali falava mal do governo e mexericava em torno da vida de todo mundo.

A história desse cajueiro está no livro "O cajueiro do Fagundes", de Araripe Júnior. O livro foi publicado em 1911, ano da morte do autor, que nascera em Fortaleza em 1848. Em 2017 uma nova edição veio a lume desta feita graças à parceria das Edições Demócrito Rocha com a Academia Cearense de Letras. É um episódio cearense em que Araripe Júnior mistura ficção com realidade, dando visibilidade maior ao açougueiro Fagundes. É um personagem picaresco, líder no meio do povo mais desvalido de Fortaleza. Seu açougue improvisado à sombra do cajueiro se torna ponto de encontro de desocupados, boêmios e de índios que ainda vivem nos arredores da vila. Esse é o cenário em que tudo acontece.

Um dos assuntos preferidos à sombra do cajueiro é falar mal do governador, principalmente de suas aventuras amorosas. Daí surge a ideia do mandatário de derrubar a árvore. É nesse momento que entra em jogo a liderança de Fagundes no impedimento da inusitada ação. Tudo se acalma mas em momento seguinte o governo repete sua ordem acrescentada da determinação de eliminar o açougueiro. O desfecho é curioso por coincidir com a morte de Fagundes por causas naturais, ou seja, mais uma vez a tragédia se dissolve. No final não se sabe se naquele momento culminante ocorreu a derrubada do cajueiro, ou se foi em momento bem mais posterior.

Araripe Júnior, que se destacou na literatura como exímio crítico literário, imortalizou-se com seus ensaios. Acontece que seus romances não foram até hoje muito bem aceitos pelos críticos. Exceção a essa regra tem sido essa sua novela "O cajueiro do Fagundes". Primeiro porque ele apresenta um pícaro muito bem elaborado. Fagundes, na sua picaresca trajetória de vida, sempre fora um espertalhão contumaz. Nascido no Aracati, viaja pelo mundo, da Bahia a Goa e Macau, passando por curiosas situações e só encalha no Ceará, depois de cansado de tantas estripulias. É pois em Fortaleza que se torna açougueiro.

Açougueiro sedentário, Fagundes engorda e seus achaques vão surgindo. Por isso que no momento mais crucial da história, quando ele iria ser assassinado, suas doenças o matam primeiro. É uma solução achada pelo autor que dá uma certa decepção ao leitor. Mesmo assim a gente não se afasta da leitura sempre pensando em um final que termina por não acontecer. Ficam entretanto o conhecimento dos costumes da época, as denominações dos logradouros, poucos conservados até hoje, os folguedos e a maneira como a religião era representada no meio social.

Há, no início do livro, textos de José Augusto Bezerra e, principalmente, de Pedro Paulo Montenegro, que faz uma "Introdução crítica a Araripe Júnior". Esses textos, à guisa de introdução, dão informações necessárias para quem não é familiarizado com a vida e a obra do autor. Acontece que no final do livro, das páginas 168 a 181 há um posfácio com o título "A ficção de Araripe Júnior". Não consta, no entanto, o nome do autor, o que é lamentável, pois se trata de um trabalho crítico do mais alto valor. Ali estão mostradas as limitações de Araripe Júnior diante da criação ficcional.

Mesmo assim o autor desconhecido salva o valor de "O cajueiro do Fagundes" ao afirmar que é "o melhor trabalho de imaginação de todos os que escreveu Araripe Júnior. Como tema, retrata a vida da capital cearense em fins do século XVIII, a sociedade promíscua toda afundada na mesquinhez dos seus interesses domésticos, as intrigas políticas e administrativas, os pequenos dramas de convivência e os mexericos de alcova". Além disso, são citadas as outras incursões de Araripe Júnior em obras de ficção de menor valor como: "Contos brasileiros", 1868; "Jacina, a marabá", 1875; "O ninho do Beija-Flor", 1874; "Luisinha", 1878.

Algo que a crítica não cita é o trato de mestre que Araripe Júnior emprega no manuseio da linguagem. Também merece destaque seu empenho em resgatar termos usuais na linguagem popular da época, hoje fora de uso. Ele traz: columim, madraço, tafularia, sumaça, almotacé, samarra, benjoim, salabardote, balandra, ceitil, canfinfins, chicanices, almuinha, pastrana, tacaniça, pichéis, parcácio, tiple, masmarro e sardanapalescas. Também aparecem as plantas, principalmente as frutíferas da região, o que demonstra que o autor tinha conhecimentos de nossa flora. Fato é que a despeito das críticas que lhe são feitas, com relação à sua ficção, Araripe Júnior, nesse seu "O cajueiro do Fagundes", demonstra ter o domínio da narrativa, além de um estilo que prende o leitor ao texto, fazendo com que a leitura transcorra leve e cativante

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