Coluna

Batista de Lima: Milagres no morro do Cruzeiro

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 21.11.2017

Tudo começou na seca de 1942. Faltava pouco para os legumes segurarem, e parou de chover. Foi aí que José de Osmundo, vendo o arrozal murchando, fez uma promessa, e choveu o suficiente para segurar aquela safra. Já na colheita, em maio, ele subiu o Picoto Alto, era assim que se chamava aquele morro, e lá nas alturas erigiu uma cruz. A partir de então, todos os anos, no mês de Maria, a população do sítio e redondezas sobe aquela montanha em profunda contrição.

O segundo milagre aconteceu em 1958. Novamente a seca prorrompeu em abril, imitando 1942. Os agricultores da região vieram pedir água ao dono do açude velho. José Cândido de Lima mandou que arrombassem seu açude e que a água podia descer para salvar as lavouras. Assim foi feito e por seis quilômetros abaixo todo o arrozal salvou-se. Os lavradores voltaram e taparam a parede. Alguns dias depois, já no verão, uma grande chuva, vinda lá das bandas do Cruzeiro, novo nome do morro, ao nascente, encheu o açude até onde estava a água anterior. Foi o segundo milagre.

A partir de então, a romaria criou corpo, alastrou-se pelos sítios vizinhos e foi necessário construir uma pequena capela para que missas fossem celebradas. O problema era levar àquelas alturas, tijolos, barro, telhas e água. Acontece que com as ideias de um morador local, Chico Moura, mestre de obras, alguns materiais conseguiram chegar ao local, menos barro e água. Ao cavarem os alicerces, notaram que a terra era argilosa e propícia para a argamassa. Faltava entretanto a água. Pois de repente, em plena seca de outubro, começou a chover e a água encheu os alicerces. Foi o terceiro milagre.

Outro milagre ficou por conta do açude dos passarinhos. É um açude mediano, desses que às vezes não ultrapassam um ano, sem secar. No caso dele, que foi construído nas fraldas do Morro do Cruzeiro, nunca mais secou. A sombra do morro, as árvores das margens são responsáveis pela não evaporação da água. Entretanto para o povo da região é um milagre, porque o açude foi construído apenas para manter água para os passarinhos e os animais da serra. Por isso que acontece o milagre da sua água não evaporar.

Outros milagres de menor monta foram catalogados ao longo desses anos passados. Houve promessas para curar quebranto, coqueluche, espinhela caída, erisipela, encosto, caboge, catimbó, mau olhado, mordida de cobra e até para encontrar coisas desaparecidas, e tudo vem dando certo. Basta ter fé e ficar devoto dos santos da redondeza: São José, São Sebastião, Santa Margarida Maria, Santa Luzia, São Vicente, São Raimundo e São João, mas, principalmente, Nossa Senhora de Fátima. Basta o morador conseguir sucesso na sua promessa para se tornar mais um frequentador do Morro do Cruzeiro.

Agora, nestes inícios de novembro, a seca perdeu o senso. Era quentura de estorricar, e seca de cinco anos, alcançando seu ponto máximo. Daí que surgiu fogo. Dizem que foi um nativo pirotécnico, enraivecido com sua velhice, beirando os cem, e a solidão eremita de pé de serra. Fato é que o fogo veio lambendo tudo, invadindo as redes sociais e mexendo com aqueles pacatos moradores com muitos descendentes, varando mundo, montados em sucesso e patriotismo. Daí que uma corrente humana interestadual voltou-se para o Morro do Cruzeiro para salvar-lhe a pele vegetal e a populacional.

Dezenas de homens se empenharam para debelar o fogaréu, mas foi inútil. Acionaram o Corpo de Bombeiros de Iguatu que após vistoria, concluiu ser impossível chegar àquelas alturas com água. Sugeriram helicópteros ou aviões, pediram socorro à prefeitura local, de Lavras, mas tudo foi inútil. O fogo guloso queimava a pastagem, a vegetação, espantava o gado para lonjuras. As labaredas começaram no sítio Pimentas, queimou no sítio Barra, amedrontou o Limoeiro e chegou pedindo alvíssaras ao Taquari. Era fumaça alta, labaredas de tamanho gigante, tudo ameaça diante de impotência daquele povo.

O sinistro chegou até a repercutir na Capital, a ponto da imprensa também entrar na luta. O Diário do Nordeste encaminhou seu repórter Honório Barbosa que produziu matéria, explanando os perigos daquele fogo. Promessas foram feitas e já no terceiro dia não havia solução para sustar a sanha destruidora das labaredas que já cercavam o Morro do Cruzeiro, na direção daquela capela construída pelos nativos. Foi aí que aconteceu o mais recente milagre. Diante de uma população já aflita e sem dormir, eis que à noite, em plena culminância de verão tão longo, o céu abriu suas comportas e choveu naquela terceira noite. Choveu o suficiente para apagar de vez o fogo que ameaçava o Morro do Cruzeiro.

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