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Batista de Lima: Literatura e Geração de 30

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 07.08.2018

A Geração de 30 trabalhou o romance. A poesia veio marcar presença em regiões variadas, para conseguir uma proximidade estilística apenas na Geração de 45. Foi o romance que colocou o Nordeste no mapa literário brasileiro. Eram José Lins do Rego, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Amando Fontes. A exceção nesse grupo é Jorge de Lima, que enveredou pela poesia, mas também com o DNA do grupo da prosa. Também Gilberto Freire, que balizou as teorias sobre o Nordeste, no seu “Casa grande e senzala”, serviu de base norteadora para o grupo de narradores.

Apesar dos temas principais dessa literatura terem sido seca, fanatismo e cangaço, não se pode deixar de citar a influência do cordel, principalmente de João Martins de Ataíde sobre o escritor José Lins do Rego. Acontece que esses escritores, nascidos e criados no Nordeste, escreveram, geralmente, quando estavam ausentes da cena de origem, a maioria militando no Rio de Janeiro. Afinal, eram filhos dos donos da terra o que os levou a mostrar um panorama do qual não fizeram parte. Daí ser muito mais de comoção que de denúncia a sua literatura.

Essa comoção fica por conta da decadência dos latifúndios a partir da Revolução de 1930. Os grandes engenhos sofreram com as novas leis nacionais. Por isso que a ruptura maior desse momento literário fica por conta do desmonte da linguagem literária tradicional, para dar lugar a uma fala popular e regional. Logo no início do movimento, quando José Américo de Almeida começou a escrever “A bagaceira”, foi logo dizendo que ia escrever em “brasileiro”, ou seja, na língua do povo. É uma linguagem das fornalhas, das feiras, dos canaviais.

Essa força da linguagem também tornou-se marcante em Graciliano Ramos ao transmitir para o texto a secura da terra combusta. Além disso, ele, em “Vidas secas”, consegue humanizar os animais e animalizar os humanos. Prova disso é que Fabiano e sua família se comunicam muito mais por rosnados do que por palavras. Por isso que, para uma análise mais acurada da obra de Graciliano, essas características vão se mostrando em João Valério, de “Caetés”; Fabiano, de “Vidas Secas”; Paulo Honório, de “São Bernardo”; Luís Silva, de “Angústia”. A vida, brutalizada pelas circunstâncias em que sobrevivem os personagens, termina encetando uma fala que é um grito de protesto. Há uma revolta diante da incapacidade de conseguir a felicidade.

A maioria dos escritores dessa fase eram descendentes diretos de usineiros ou fazendeiros proprietários em decadência. Daí que cada um voltou reconstruindo um paraíso perdido. Por isso que existe muito de memória nos seus escritos. José Lins do Rego é o maior exemplo desse memorialismo literário. Jorge Amado segue na mesma prática, apenas mudando do canavial para o cacau. Todo esse panorama, no entanto, foi preparado teoricamente por Gilberto Freire. O autor de “Casa Grande e Senzala” foi o estudioso do elemento afro-brasileiro da zona canavieira, principalmente.

Nesse grupo há o caso emblemático de Rachel de Queiroz. Foi a única mulher nesse momento literário. Depois, a única pessoa que representou o Ceará. E interessante é que os personagens principais das obras desse período são masculinos. Rachel, entretanto, privilegiou a mulher. Conceição, Dora Doralina, as três Marias e Maria Moura são personagens de ponta nos seus livros. Essas mulheres personagens são fortes, determinadas como a própria escritora que nunca se curvou na convivência com o mundo masculino.

O caso de Rachel de Queiroz é uma exceção na época. O mundo nordestino dos engenhos era marcado pelo machismo. O dono da terra se preocupava em formar o filho homem em advocacia para entrar na política, outro filho era colocado no seminário para se tornar padre e o terceiro ficava na fazenda para manter o mandonismo e o curral político. Aliás, não é apenas a casa da fazenda que pontifica nos romances da época, há também a casa da cidade em que o fazendeiro passava as festas do padroeiro e colocava os filhos que iam em busca de estudos mais avançados. Os grandes fazendeiros possuíam toda uma conexão com a cidade mais próxima, inclusive com a capital de seu estado.

Essa estrutura social do Nordeste pouco mudou. O coronel deixou a casa grande da fazenda e foi ocupar a mansão da cidade grande. Trocou a prefeitura de sua cidade pela Câmara Federal. Se chega ao Senado, já coloca o filho na Câmara. Os canaviais e os algodoais vão sendo ocupados pelas pastagens. A mão de obra escassa está sendo trocada pela mecanização. Acontece que os mecanismos de poder continuam os mesmos, apenas mudaram a roupagem. Falta, no entanto, a literatura que, se não denunciar tudo isso, pelo menos fotografe e se comova como o Romance de 30.

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