Coluna

Batista de Lima: Leandro, o Cordel e Arievaldo

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 17.10.2017

Arievaldo Viana publicou em 2014 o livro "Leandro Gomes de Barros - Vida e obra". Ainda hoje distribui esse livro em feiras, congressos e encontros literários. Até parece que na atualidade não importa a qualidade do livro, o difícil é encontrar leitor. Nesse caso, Arievaldo apresenta uma biografia crítica do mestre da Literatura de Cordel, para muitos o pioneiro desse gênero literário no Nordeste.

Em 170 páginas das Edições Fundação Sintal, de Fortaleza, e da Queima-Bucha, de Mossoró, a vida e a obra de Leandro Gomes de Barros são apresentadas ao leitor com o zelo de pesquisador que não dispensa o mergulho em fontes primárias para trazer à tona tudo que diz respeito ao biografado. Para Pedro Nunes Filho, que escreve as orelhas do livro, Leandro Gomes de Barros é "o mais famoso cordelista do Brasil". Já na apresentação do livro, Marco Haurélio o classifica como "patriarca da literatura de cordel e autor de, pelo menos, vinte clássicos incontestáveis do gênero". Isso comprova o respeito com que intelectuais de nomeada ainda hoje reverenciam Leandro como um clássico do cordel.

É tanto que ele transforma tragédias gregas em folhetos populares. Confronta o sagrado com o profano sem apelos para sectarismos. Por isso que Gilmar de Carvalho lembra, no Prefácio, que esse poeta, pioneiro do nosso cordel, transita da tradição oral para os livros de cavalaria e para as tragédias gregas com a mesma desenvoltura.

Isso prova que Leandro Gomes de Barros era um homem de instrução. Acontece que muita coisa sobre ele e dele não nos chegou até hoje por escrito.

A tradição oral às vezes acrescenta, às vezes se omite a propósito desse famoso poeta. Foi por isso que Arievaldo Viana teve que viajar pelo Nordeste, entrevistar familiares do poeta e consultar arquivos credenciados do cordel como o da Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Foi a cartórios e a velhos cantadores que estiveram próximos a Leandro durante seus últimos anos de vida.

Desse trabalho incansável e demorado surge essa obra de resgate de uma personalidade em vias de cair no ostracismo.

De acordo com a pesquisa de Arievaldo Vianna, Leandro Gomes de Barros nasceu na fazenda Melancia, em Pombal (PB), no dia 19 de novembro de 1865, e faleceu em Recife (PE), em 04 de março de 1918. Seus principais cordéis são "A Vida de Cancão de Fogo e seu Testamento", "Donzela Teodora", "Alonso e Marina", "Sofrimentos de Alzira", "Soldado Jogador" e "Meia-noite no Cabaré". Este foi inspirado em "Noite na Taverna", de Álvares de Azevedo. Há entretanto muitos outros cordéis de sua autoria, além de muitos de onde seu nome foi retirado e colocada outra autoria.

Essa questão da autoria dos cordéis é um problema para pesquisadores sobre o tema. Geralmente quando o espólio de um poeta era vendido, seu comprador comprava também os direitos sobre a obra e mudava a autoria do folheto. Talvez tenha sido Leandro Gomes de Barros uma das maiores vítimas desse comércio. Afinal, sabe-se que após sua morte, sua esposa, D. Venustiniana, vendeu todo seu patrimônio poético a João Martins de Athayde. Daí por diante o novo proprietário, também poeta popular, começou a colocar seu nome em algumas obras que foram de Leandro.

Da mesma forma sabe-se que com o falecimento de João Martins de Athayde, anos depois, todo esse material foi vendido por seus familiares a José Bernardo da Silva, de Juazeiro do Norte, proprietário da Gráfica São Francisco e da Lira Nordestina. Só mais recentemente a Casa Rui Barbosa vem tentando, através de seus pesquisadores, organizar e catalogar essas obras dispersas e de autorias nem sempre verdadeiras.

Acredita-se, pois, que essa pesquisa de Arievaldo seja também uma contribuição para esse trabalho da Fundação.

Nesse processo de venda do patrimônio poético de famosos cordelistas pelos seus descendentes, há razões inquestionáveis que norteiam esses comportamentos. No caso de Leandro Gomes de Barros, constata-se que ao morrer com 53 anos, o poeta deixa a mulher e os filhos numa situação financeira em que não possuíam nem casa própria. Por toda a vida, o cordelista morou de aluguel. Vivia da renda dos seus folhetos.

Além disso Leandro era boêmio e passava tempos fora de casa em viagens de venda do seu material poético. Dona Vênus, e era assim que ele a chamava, quando se viu viúva tendo que sobreviver com os filhos, o único bem que possuía era o espólio poético deixado pelo marido. Assim, ao final da leitura desse livro de Arievaldo Vianna, o leitor se sente confortável para concluir ter mantido contato com um valoroso apanhado crítico e biográfico do pioneiro do cordel nordestino.

É uma obra de cunho também didático porque possibilita conhecer o mais popular de nossos gêneros literários. O cordel, no auge de sua evolução, chegou a ser a crônica principal das populações sertanejas. Isso aconteceu por se configurar uma literatura de fácil absorção pelos seus leitores e ouvintes e também por trazer às camadas populares uma legião de mitos e as lendas que os cercavam. Assim, verifica-se que Arievaldo, com essa publicação, presta uma enorme contribuição para os estudos e para a preservação da cultura popular entre nós.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.