Coluna

Batista de Lima: Itaytera e dois heróis caririenses

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 13.03.2018

O Instituto Cultural do Cariri foi fundado em 18 de outubro de 1953 e teve como primeiro presidente o Dr. Irineu Pinheiro. O órgão oficial de divulgação de sua produção cultural é a Revista Itaytera, já no número 46, correspondente aos anos de 2016 e 2017. Coincidentemente, 2017 é o ano do bicentenário da Revolução de 1817, que iniciada em Pernambuco, chegou ao Ceará pela cidade do Crato, tendo durado naquela comuna apenas de 3 a 11 de maio daquele ano.

Esse número de Itaytera traz bons artigos sobre a Revolução de 1817. Traz também o perfil de dois personagens que marcaram a cena histórica daqueles e de outros momentos das primeiras décadas do século XIX. São eles: José Pereira Filgueiras e Joaquim Pinto Madeira. São tão marcantes na história do Ceará que são homenageados, nominando importantes ruas da cidade de Fortaleza. As ruas Pereira Filgueiras e Pinto Madeira são paralelas e com fluxo na mesma direção oeste-leste. Isso não significa que os dois tivessem tido os mesmos comportamentos belicosos.

José Pereira Filgueiras é estudado, na revista, por Heitor Feitosa Macedo. É um texto que explícita algumas controvérsias sobre a morte desse, que foi o mais importante capitão-mor da Vila do Crato. Segundo o pesquisador Heitor, Filgueiras destacou-se até fora dos limites do Ceará, quando comandando numerosa tropa, venceu, no Piauí, a batalha do Jenipapo. Foi naquelas terras que houve resistência à Independência do Brasil. Daí que Filgueiras foi encarregado de comandar a tropa que terminou por vencer os bem treinados soldados do major Fidié, em 1823. Foi por isso nomeado por carta de D. Pedro I, general do Exército Expedicionário para defesa da Independência.

O artigo de Heitor Feitosa Macedo, no entanto, objetiva, principalmente, dirimir dúvidas que pairam em torno da lendária morte de Filgueiras. Há, em torno do assunto, opiniões variadas, emitidas por conceituados historiadores. Houve até quem escrevesse que, ao ser conduzido preso para a Bahia, fora assassinado no percurso, pelo contingente policial que o conduzia. Essa não é a opinião do articulista Heitor que foi averiguar numa fonte muito acreditada, uma descente de Filgueiras que reside em Minas Gerais.

Essa descendente, de nome Maria Cecília Santos Carvalho, Professora aposentada, tem pesquisado sobre seu tetravô e estava produzindo um livro que já deve ter sido lançado, contando a verdade histórica.

Conforme a professora Maria Cecília contou para Heitor, Filgueiras que se envolvera na Confederação do Equador, 1824, promovendo as ideias republicanas, terminou preso e conduzido para a Bahia. No percurso, em terras baianas, o prisioneiro importante conseguiu se libertar e foi residir, com o nome trocado, em terras mineiras do Arraial da Saúde. Constituiu nova família e faleceu em sua propriedade, em 1830. Esses dados fornecidos pela entrevistada suscitam algumas perguntas que ela se omite em responder, alegando que as respostas estarão no seu livro que virá a público ao longo de 2018.

Com relação a Joaquim Pinto Madeira, sabe-se que era chefe político de Jardim e monarquista convicto. Nascido em Barbalha, depois de uma vida marcada pela truculência, foi fuzilado no Crato, em 28 de novembro de 1834. Na repressão que exercia, em nome da monarquia, não tinha limite sua prática violenta. Prova disso é que ao término do levante de 1817, quando os revoltados queriam a república e foram derrotados a 11 de maio no Crato, foi Pinto Madeira encarregado de transportar os prisioneiros até o Icó, o que foi feito com muita violência e humilhações. O mesmo viria acontecer com a Confederação do Equador em 1824, tendo a família Alencar como a mais atingida.

Segundo o autor da pesquisa sobre Pinto Madeira, Fernando Maia da Nóbrega, na ocasião do julgamento, da condenação e do fuzilamento desse barbalhense, era José Martiniano de Alencar quem governava o Ceará. Daí que esse júri é considerado parcial, tendo em vista que Alencar era inimigo ferrenho de Pinto Madeira. Sua mãe, Bárbara de Alencar, prisioneira, e dois irmãos seus que foram mortos na época, Leonel e Tristão Pereira de Alencar foram perseguidos por Pinto Madeira. Era difícil, pois, o júri, composto por vítimas de sua arrogância, não condená-lo, como realmente aconteceu. Daí seu fuzilamento sentado numa cadeira e amarrado com as mãos para trás no Bairro Vermelho, do Crato.

Esses dois textos sobre duas lendárias figuras do Cariri engrandecem Itaytera. Essa revista tem sobrevivido ao tempo, sempre trazendo matérias com temáticas caririenses. A diretoria atual, bem como os articulistas desse mais recente número, mostram a grandeza cultural da região. Esse número 46 traz vários artigos de qualidade que prendem o leitor do começo ao fim. Quanto a esses dois personagens marcantes na história do Cariri, é bom saber que hoje, o Crato possui uma rua com o nome de Pereira Filgueiras. Essa rua fica exatamente no antigo bairro chamado Alto da Penha, cujo nome mudou para Pinto Madeira.

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