Coluna

Batista de Lima: Crônicas de Rosa Marin Emed

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 21.03.2017

Dizem que a crônica é um gênero menor, porque ela transita entre jornalismo e literatura. É tanto que Artur da Távola chegou a afirmar que a Crônica é o Jornalismo da Literatura e a Literatura do Jornalismo. Há, no entanto, crônicas que perduram ao longo dos tempos por serem um retrato de sua época. Ela é um registro de um cotidiano que logo se transforma em História. Daí ser respeitada como referencial para os estudos dos historiadores. Por isso que ao ler as crônicas de Rosa Marin Emed, constata-se que muito da nossa História devemos aos cronistas.

Começa que Rosa Marin é filha de espanhóis que migraram para São Paulo, quando a Espanha estava mergulhada em revolução. No interior de São Paulo, precisamente em Herculânia, a família dedicou-se ao cultivo do café e a educar seus filhos. Daí surgiu a irrequieta garota, única mulher entre irmãos, dedicando-se à formação superior em Psicologia, profissão que abraça até nossos dias. Casou-se com um também descendente de espanhóis, médico, produzindo, o casal, filhos e netos. Hoje, já ultrapassando os sessenta anos, Rosa rememora essa trajetória familiar em crônicas deliciosas em que saberes e sabores se entrelaçam na elaboração textual.

Na Apresentação ela afirma que essa coletânea de "Crônicas sem compromisso" abrange um período que vai da chegada de seu pai ao Brasil em 1923 até nossos dias. Já o prefaciador, Hernani Vieira, declara que desde os primeiros escritos de Rosa, em periódicos da região, dava para se notar que ali estava "uma rara joia em processo de lapidação". É o que se nota a partir da primeira frase com que ela abre seus escritos: "A infância é o lugar onde morávamos no passado e que hoje mora em nós". Dito isso ela se transporta para a Espanha para retratar a partida de seu pai, em tenra idade, para as desconhecidas terras brasileiras.

Após mostrar os caracteres do pai, a autora passa a tratar do perfil materno e chega a afirmar que teve "várias mães em uma só". É nesse momento em que a casa da família abre suas portas e o leitor passa a desvendar contornos domiciliares em que a presença da mãe se apresenta mais ambientadora do que a gestão masculina. É essa presença feminina no centro da casa que instaura os sabores dos quais a cronista não esquece. É uma culinária de que ela só vai se apoderar como produtora, já depois de casada e por conta de circunstâncias que não a dispensaram. Verifica-se nesse momento que nos tempos de hoje nem sempre as práticas culinárias das mães são necessariamente retomadas pelas filhas.

A propósito, a cronista aponta "duas coisas que não podemos esquecer: amor e cheiro". É então que ela afirma ser a memória olfativa "a mais rudimentar e visceral das memórias". Além disso, conclui que "o olfato é o primeiro órgão dos sentidos a se desenvolver ainda no útero materno". Essa memória nos transporta a distantes paragens das nossas lembranças. Entre essas lembranças estão o cheiro da terra, da chuva, das flores, e no caso de Rosa, o cheiro das flores do cafezal. Mas sua casa também se constrói na memória pela sucessão dos cheiros que envoluem da lembrança. Desde a sua construção em 1956 a casa da cronista surge não apenas nas fundações alicerçadas mas pelas sinestesias que seus antigos cheiros promovem.

Entre essas sinestesias está o contato com a manga. Existe uma fenomenologia que se instaura a partir da manga vista hoje na frieza crua de um supermercado que transporta a autora aos tempos da infância, quando a manga era retirada da mangueira, já madura e saboreada sem o pudor das convenções. A manga era chupada feito picolé, era saboreada através do seu sumo se antecipando às fibras. Era a infância que se sujava da manga, ou a manga que se sujava de infância na naturalidade do consumo. Era o cheiro que ficava nas mãos, o amarelo que ficava em torno da boca, era o gosto na língua, que reaparece ao ver, simplesmente, uma manga no balcão. É preciso reacender a infância. Afinal a poesia é uma busca de uma infância que não conseguimos perder.

Rosa Marin Emed é psicóloga e, assim sendo, vez por outra, suas crônicas remetem a reflexos de estudo de casos que tem enfrentado no dia a dia. O caso mais simbólico trata-se de uma tia que tinha diagnóstico de esquizofrenia. Inclusive, a cronista considera que esse caso teve influência na sua escolha por cursar Psicologia. Como está afirmado no texto, desse caso surgiu sua curiosidade por mergulhar nas entranhas da alma. Daí, pois, sua conclusão de que o esquizofrênico é uma pessoa que possui "excesso de sentir". Essa sua conclusão ao lado de outros saberes que expõe ao longo dos textos denotam seus esforços em vasculhar os meandros da psicanálise.

Ao final da leitura dessas revelações de Rosa, conclui-se que esse é o livro de sua saudade. É um retorno a um paraíso perdido, a infância. Depois ela estabelece uma ponte entre as gerações vividas, da dos pais aos seus netos. Considera-se, pois, intermediária entre esses polos. Além disso assume-se como pertencente à terceira idade. Desveste-se de qualquer pudor para se revelar com suas qualidades e alguns defeitos que transcendem. Sua escritura é, portanto, terapêutica. Vê-la, pessoalmente, pela primeira vez, será como revê-la, isso para quem ler esse seu livro. Portanto Rosa, foi muito bom estar em sua companhia, nas páginas desse livro.

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