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Batista de Lima: Como sangra o Cariri

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 19.09.2017

Como sangra o Cariri

No dia em que a hóstia transformou-se em sangue na boca da beata Maria Magdalena do Espírito Santo Araújo, teve início um dos maiores fenômenos místicos do Nordeste brasileiro. Operava-se naquele momento, em Juazeiro do Norte, a culminância de uma sangria de mão dupla. Era a simbologia do sangue em vai-e-vem, circulando no Nordeste corpo, mas tendo Juazeiro como o coração pulsante. Era a sagração popular do Padre Cícero, atraindo devotos de todo o Nordeste, que lotavam os caminhos, veredas e estradas como veias escorrendo em direção a um redentor. Não deu para sustar a diástole, não deu para destruir o corpo diante da fortaleza do coração de tudo. Juazeiro estava predestinado a ser o centro de uma revolução silenciosa e duradoura.

No rastro do sangue da Beata, vieram os penitentes com seus cantos lamuriosos nas noites das Semanas Santas, nas encruzilhadas e nos cemitérios. Não só cantavam e rezavam, também flagelavam-se com suas disciplinas cortantes até o sangue descer das costas e umedecer o chão pisado com devoção. Era de novo o sangue em evidência, real e purificador na remissão de pecados. Até na Igreja da Sé do Crato, viu-se o reverendo Felix de Moura, em plena celebração, cortando-se diante dos fieis. Era o sangue salgando a terra mística, brotando do que restava de carnes daqueles ditos apóstolos da nova era. A terra regada a sangue iria vivificar a fé e salgar o rio de gente e de água no rumo do Juazeiro.

Não muito distante desse cenário, onde os cariris pernambucano e paraibano se dão as mãos, o místico Antônio Ferreira previa a vinda de Dom Sebastião. Também não muito distante no tempo, 1838, esse pregador da caatinga, ao pé de grandes pedras, fundava a santidade de Taperoá. Era um Cariri sangrando pelas costas em feitio de penitência. Ali, em Pedra Bonita, primeiro sacrificavam animais para espargir as pedras em que o Quinto Império seria instalado. Em seguida começaram a sacrificar pessoas para ensanguentar as pedras. Em 17 de maio de 1838 tudo culminou com a degola de 53 pessoas e o sangue escorreu pelo riacho de Taperoá.

Sangra também o Cariri na celebração culinária. Na morte da galinha caipira, criada nos terreiros das casas, no quitute à cabidela, o sangue dela se torna no disputado molho pardo. Da mesma forma o cordeiro e seu companheiro o bode, quando cosidos ou assados, o prato primeiro posto na mesa vem a ser o sarapatel. Entre os miúdos ali cosidos o mais disputado dos comensais é o sangue da criação. Também o sangue do porco vai surgir no sarrabulho, quando o prato for servido. É preciso não esquecer, na sobremesa da casa, a presença do chouriço, também feito do sangue que do porco se extraiu. Esse sangue posto ao fogo, adoçado a rapadura, temperado com amendoim, é delícia das delícias nas terras dos cariris. O boi também de tanto sangrar, dele, como se diz na terra, só não se aproveita o berro.

Outras sangrias ocorrem, no abençoado vale, segundo conta o povo. Em tempos que já vão longe, nas terras do Ceará, houve a invasão do mar. Veio um turbilhão de água, empurrando terras e bichos, formando a grande baía, cercada de três serras muralhas. A leste o muro se chama de serra do Apodi, a oeste, a Ibiapaba separa do Piauí, ao norte, o oceano mandou água para o sul onde fica o Cariri. Foi nesse Cariri em que os peixes se encantoaram pois ali virou sangria em busca do Pernambuco. Quando o mar sangrou de volta, ao seu ninho oceano, os peixes que lá estavam de lá não conseguiram sair da Chapada do Araripe.

Uma outra grande sangria no Cariri tem se dado. Por conta das sesmarias, que deram origem a grandes fazendas, a terra ficou de poucos e muitos com nada ficaram. Além disso, as grandes secas massacraram o povo pobre e a única saída foi embarcar para o Norte. Foram extrair a borracha lá nas terras da Amazônia e de tanto sofrerem lá, por conta de enganações, “arigós” foram chamados. Mesmo assim com tanta dor, foi o trabalhador da selva, que depois de muita luta, contra as forças da Bolívia, incorporou o Acre ao Brasil. Poucos dos que do Ceará se foram para aquela cruel floresta, conseguiram viagem de volta às terras do Ceará. 

Outra sangria desatada levou em busca do Sul, levas de caririenses para viver em São Paulo como operários da construção civil. Paus-de-arara lotados fizeram da Transnordestina, depois BR 116, uma artéria rompida por onde se esvaiu a mão-de-obra barata que foi se vitimar no desvairamento da Pauliceia do não retorno. Patativa do Assaré compôs o hino desses retirantes com seu belo poema “Triste partida”. Nossos irmãos foram construir uma cidade que não lhes deu teto. Deu-lhes o relento e um jornal usado que lhes serviu de lençol. Deu-lhes a impossibilidade do retorno, pois sangue que sai das veias, ao coração não retorna.

Finalmente uma sangria aberta, ao tempo da seca de 1958, levou de correnteza, muitos de nós para o Planalto Central. Era preciso construir a nova capital do Brasil. Milhares de candangos promoveram uma nova sangria para edificar um Plano Piloto em que não puderam embarcar. Ficaram olhando, da periferia da nova cidade, a ocupação dos de terno e gravata que não sentaram tijolos.

Quando Demócrito Rocha declarou que “O Rio Jaguaribe é uma artéria por onde se esvai o sangue do Ceará”, talvez não imaginasse que outras artérias iriam se abrir. As BRs asfaltadas, os ônibus com ar condicionado, as vias aéreas com passagens a longo prazo são quimeras para essa grande sangria. O Ceará, cercado por três grandes muralhas de serras ficou com uma grande boca em que uma hóstia que virou sangue não parou de sangrar. 

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