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Batista de Lima: como e por que me tornei professor

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 17.07.2018

Descobri que me tornei professor por ser um aluno que não quis sair da escola. Primeiro foi naquelas escolinhas dos sítios em que era o primeiro a chegar e o último a sair. Não sei se era o cheiro de lavanda da professorinha ou o sabor do saber que já atiçava meu paladar de leitor iniciante. Depois, no Seminário, colocaram-me diante de um "self service" de livros dos mais variados sabores. Li muito e ouvi leituras durante as refeições. Dos cinco anos naquele Seminário Apostólico da Sagrada Família, os dois últimos fiquei responsável pela biblioteca da instituição.

Depois de cinco anos deixei o Seminário, viciado em leitura. Foi então que ingressei no magistério, começando pelo segundo ano primário. Tempos difíceis, aos 18 anos, estudante do Liceu do Ceará e professor do Educandário Casemiro de Abreu. Para me firmar como professor, resolvi cursar Letras, ingressando na Universidade Estadual do Ceará, que à época era Faculdade de Filosofia do Ceará. Foi ali no curso de Letras que tive meu aprendizado para ministrar aulas, pois meus excelentes professores a isso me levaram, com suas técnicas pedagógicas.

Verifiquei, com o tempo, que a sala de aula é uma espécie de teatro. Concluí que é um ambiente propício para se contarem histórias. Por isso enveredei pela Literatura, que é uma fonte de contação de histórias. A história conforta, embala e prende a atenção do ouvinte. Presa essa atenção, os conhecimentos vão brotando. Todos que estão numa sala de aula possuem conhecimentos. Há sempre algum saber pairando na sala que não é exclusivo do professor. O que é preciso é canalizar esse saber para o aprendizado. Por isso que a sala de aula precisa ser um teatro de arena com todos os presentes como atores.

Foi assim que descobri que o professor sempre aprende. Os alunos são sutis professores. Eles nos botam para estudar. As últimas novidades deste mundo disparado nos chegam através dos alunos. Daí descobri que meus melhores mestres estavam sempre diante de mim. Foi a partir de então que despertei para a necessidade do afeto na nossa relação. Passei então a defender a tese de que para se conseguir a efetividade no aprendizado, um dos mais largos caminhos nasce na afetividade. Foi, pois, essa pedagogia do afeto que norteou, ao longo dos anos, o meu contato com variadas gerações de alunos.

Foi então esse afeto que me levou a entender os dramas dos alunos de cada geração se martirizando na aquisição de conhecimentos, em busca de galgar um lugar ao sol. Daí sempre procurei lhes mostrar que o mundo da realidade e o da fantasia estão bem próximos, o que nos impõe a necessidade de um equilíbrio entre essas duas instâncias da vida. É tanto que a Alegoria da Caverna, de Platão, nunca esteve tão presente em nossas vidas. Esse grande parque de diversões em que se tornou o mundo nos põe diante do drama da escolha. A velocidade do trem da vida só nos deixa ver as grandes coisas da paisagem. Precisamos parar um pouco para descobrir os detalhes que nos rodeiam.

Escolhi ser professor também para desenvolver o apostolado do saber já que desisti do apostolado do sacerdócio religioso. Não seria um bom padre, preferi ser um bom leigo. A sala de aula é meu templo. Uma aula é uma celebração. E o instrumento melhor para a festa dos saberes é a palavra. Tenho desenvolvido uma enorme afeição pela palavra. Tanto pelas minhas como pelas palavras dos outros. Elas ferem e acariciam. Para o professor, elas entrelaçam os afetos e temperam os saberes. Aliás o professor precisa colocar sabor nos saberes. Um saber bem temperado se torna mais fácil de ser degustado.

Ao longo dos anos como estudante, gostei mais daqueles professores que vinham garimpar os saberes de nós alunos. Guardo-os na minha memória com a delicadeza do discípulo que os reconhece como mestres e guias. Por isso que fui influenciado por alguns deles a ser um organizador dos saberes que brotam numa aula. Mas tudo isso com delicadeza, respeitando os dramas particulares de cada um. Para isso a escuta sempre foi fundamental. Professor às vezes é muito mais quem escuta, apesar de que nossa formação se tornou um aprendizado em torno do falar e não do escutar. Sempre procurei escutar como forma de falar, mesmo que na minha formação não tenha tido aulas de escutatória.

Tenho descoberto que os pensadores foram pessoas que muito escutaram. As coisas também nos ensinam porque nos escutam. Nossa casa tanto nos escuta que depois nos dá lições. A casa antiga guarda no seu silêncio as vozes das gerações. Uma cama de hospital nos conta histórias dos antigos pacientes. Foi, pois, me tornando professor que passei a ouvir os outros. Essa minha fala de professor é uma reprodução de muitas falas encantadoramente radicais que encontrei por aí. Não são falas repetidas ou viciadas, são aquelas que se desdobram em rebeldias criativas. Por isso que os, aparentemente, mais difíceis alunos são aqueles que mais ensinam aos seus professores. Portanto não me consideraria professor se tivesse apreciado aquelas falas que começam com tapinha nas costas. O meu crescimento construiu-se na encruzilhada da pequenez. Topadas, tombos e até quedas foram meus melhores professores. Foi, pois, em cima desses percalços que resolvi ser professor, afinal sou carente de aprendizagens.

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