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Batista de Lima: casa, pele e abismo

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 03.07.2018

Olha essa casa. Não é apenas uma casa. É uma pele que meus pais construíram como a segunda proteção de nossas vidas que somaram dez. Meu pai a construiu de fora para dentro. Ergueu paredes sobre profundos alicerces. Aliás, tudo por aqui é profundo. Daí a razão das firmezas das paredes da casa e nossas. Por aqui nada se deixa levar pelo vento. Por isso que transporto essa casa sobre os ombros há tanto tempo. Quanto mais distante fico daqui, mais ela me pesa aos ombros. Parece que é um apelo que me é feito para retornar. Mas não é apenas um simples voltar, é também um ficar mesmo indo.

Minha mãe construiu essa casa de dentro para fora. Ornamentou as paredes, de santos, redes e cafunés, todos com ela parecidos. Perfumou os compartimentos com os cheiros do fogão. Musicou o chão que pisamos com o som dos seus chinelos. Abriu as portas para fora e nós nos fomos como forma de ficar. Cozinhou por anos nossos quitutes em respeito a nossas fomes. Essa casa trescala seus cheiros há muitos anos de sua partida. As panelas estão ali, o fogão silenciado ainda estala no fogo aceso. Do outro lado da janela, o borralho guarda ainda a cor da saudade daquilo que às vezes sobrava.

Olha o alpendre dessa casa. Ele se abre para o nascente e avisa se vai chover. É quem primeiro dá boas vindas a quem chega e é o último que dá adeus a quem parte. Nesse alpendre as histórias são contadas, trazendo os longes para os próximos. É ele quem primeiro vê o sol e avisa a quem dorme que é hora de acordar. Foi nele que por anos, meu pai sentou-se, olhando além, querendo que o horizonte prendesse, naquela serra, a fúria do tempo indócil. Nesse alpendre já houve missas, novenas e renovações, com o povo da redondeza pedindo graça divina. Houve também discussões dos irmãos, nascidos dez, vingados oito, na solução dos problemas.

O alpendre leva à sala onde os santos nos retratos, mais alguém que é da casa, pedem a quem vier de fora, que espere quem venha de dentro. É a sala das cinco redes, dos cinco filhos homens dormirem, pois, o quarto das três irmãs mais bem guardado fica. No tempo que não tinha luz, dessas que poste vomita, havia a lamparina preta, que clareava o recinto enquanto o querosene dava. Uma brisa que chegava, vinda das brechas da porta, mexia com a labareda que se contorcia e pintava figuras do outro mundo nos contornos da parede. Nessa sala se rezava o terço, em noites de promessa e luto, e foi nela que minha avó me apareceu depois de morta.

Dessa sala sai corredor que nos leva a outra sala onde a mesa se anima, quando todos vêm jantar. É um corredor escuro, passando debaixo do sótão, onde o arroz é guardado, antes que pilado seja. É nesse corredor em que as armas são guardadas com cuidado, atrás da porta. É a espingarda e seus cartuxos, um facão não sei pra quê, e um chiqueirador de couro cru feito para tanger cachorro. Esse corredor é quem limita o masculino de fora do feminino de dentro. É tanto que dele saem duas portas sempre fechadas. Uma é do quarto dos pais e a outra do quarto das filhas, ambientes de interditos.

A sala de jantar, que também é de almoçar, vem depois do corredor e se abre para a cozinha pois as duas são parentas. Numa a comida é cozida e noutra o cozido é comido. Nessa sala de jantar, quem mais fala é a mesa, contando para as cadeiras, histórias que ali se passaram. Tem aquela do valentão, afilhado dos meus pais, que toda Semana Santa vinha em visita aos padrinhos. Com muita precaução, aquele homem estranho botava as armas sob a mesa, rezava contrito em silêncio, pedia a bênção aos padrinhos antes de começar a comer. Essa mesa é um plenário onde muitas questões urgentes ali foram solucionadas entre uma colherada e outra.

Por fim vem a cozinha com fogo de lenha e de gás, com janela que se abre para o borralho e a porta que mostra o poleiro onde as galinhas confabulam. Nessa cozinha os quitutes, de variadas feituras, saíam em pratos rasos e fundos para saciar aquelas fomes sentadas em torno da mesa. Eram cheiros que ficaram impressos na nossa memória e que o tempo mais que tente, não consegue apagar. O cheiro do café coado, da carne fresca feita em bolinhas, da malassada do bacalhau da sexta-feira santa estão ainda em minha boca na saliva que provocam. Pamonha e canjica, pão de arroz e torresmo, feijão verde e melancia continuam por ali.

Olha, pois, essa casa, feita de tijolo e de barro, cimento, ripas e caibros, com telhado contra o sol e biqueiras para as chuvas. Não é uma casa qualquer. É pele e abismo. Ela não está só aí mas nos ombros dos que nela nasceram, onde quer que eles estejam. Ela lateja e cheira nos desvãos de nossas mentes.

É uma casa maternal, com setenta anos de feita, onde nós nascemos todos e que cada vez que nela entramos nós nascemos de novo. É pena que para o olhar de quem nela não nasceu é uma simples casa qualquer. Mas cada um tem sua casa a cultivar, e ela se incorpora no nosso viver com seu aspecto maternal como uma pele de que tanto precisamos para nossa proteção.

Ao final dessa visita, do alpendre à cozinha, deixamos as portas dos quartos, fechadas a quem nos seguiu. O quarto das três filhas é só delas e lá se acordam mais tarde e vamos respeitar seus sonos. O quarto dos pais fica também fechado com seus mistérios da vida. Alcova e venustério, templo sagrado do amor, ali nós irmãos fomos gerados, um a cada ano de uma década, em partos normais e caseiros. Por isso que essa casa, com toda vitalidade, mora em nós feito uma nave, boiando calma e materna, no oceano abissal da nossa profunda saudade.

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