Coluna

Batista de Lima: Ao pé da água

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 05.12.2017

Parado nesta margem, vejo minha sombra projetada sobre a água. Se me movo, ela se mexe. E o mundo todo me olha triste, pois me entretenho, olhando meus contornos sombrios, mergulhando sem se molhar. O mundo todo se oferece para me salvar de tão empobrecida observação. Não sabe ele que toda minha fortuna é estar aqui, pescando das águas, o sentido da vida. Essa procura eu carrego desde criança e ela sempre me manda seguir em frente. Por isso que na meninice, que nunca perdi, eu subia a serra para tocar o céu, e ele pulava para outra serra mais distante, brincando comigo de esconde-esconde, o tempo todo.

Quando tentei capturar as nuvens, também não tive a sorte de tocar nelas com meus dedos tristes. No entanto minha sombra sobre a água traz o céu na tela dela, traz as nuvens que no céu nasceram. Por isso patenteado fica que a sombra que projetamos mais atraente se mostra que o corpo que vivemos a transportar. Assim, não me importo se me chamam de barco que naufragou no porto. Prefiro ficar olhando, no espelho desta água insone, a lua que parece cega e o sol feito soldado que perdeu a guerra. E assim, parado nesta margem, consigo ver a vida que não vi, de tanta pressa na sua busca, não vendo que ela estava mordendo meus calcanhares no seu pedido de clemência.

Nesses anos todos em que cavalguei os dias, vi meu tempo fluir sem freio até chegar a esta margem que me acena e tange. Esta água, que me lê, deitada, tira cópia do meu corpo torto e põe minhalma a nadar em busca da terceira margem desenhada além. Minha casa que vislumbro ao longe é um navio encalhado em reza, segurando entre infância e medo, o passo certo a romper distância. Não preciso, pois, ir longe para ver o nascente, se ele por aqui já passou. O que sinto, na ternura dessas águas, são muitas histórias que nuvens pandas de lonjuras me trouxeram. Por isso que ao meu redor lateja o mundo, às vezes branco, às vezes cinza, mas continua um mundo pesado de tanta interrogação.

Esse imenso mundo me rodeia, cheio de abismos, vasta boca que me mastiga e engole. Por isso me sento na cadeira que meu pai deixou e no fundo mais fundo deste açude velho, leio o livro calmo das águas prisioneiras. É muito difícil me esconder do que está fora das águas, mas se achado for, fica o fato de ter tentado me esconder para poder me encontrar. Daí que postado aqui nesta beira, seguro aos braços a crueldade do dia, arrasto aos pés os mistérios da noite. Feito uma mãe que não me pariu, esta água me dá colo, ternura e sonho. Chegou pacata lá dos mundos do trovão e me olha com o olho grande da minha mãe de mesmo.

Bonito dessa água é o marulho que ela faz quando em noites de luar põe-se a lavar o tornozelo da lua. O uivo do vento enciumado grita na serra tornado eco. Enquanto isso, a voz tristíssima dos ancestrais sussurra trovas na voz rouquenha de um galo cego. Esses ausentes, que chegam à noite, trazem lições que se aprendem sem palmatória. Depois me riem dos segredos que carrego, mas que neles encontraram a claridade. Meu pai e minha mãe lamentam tristes do tão pequeno que fiquei quando cresci.

Quando me ponho nesta margem, olhando a sombra, é procurando de mim e dela certo menino que um dia fui. É procurando, principalmente, na sombra que projeto, o rumo certo do que resta prosseguir. Como o além não me apetece, vou rastreando neste aquém, certas ranhuras que a vida vem prescrevendo como rascunho de um mapa estranho a palmilhar.

Verde plano do capinzal do sítio, que move a brisa que se derrama à tarde, traz de volta o sonhador que fui, leva contigo esta dor que arde. E desta margem que não sei se direita ou esquerda, quero meu direito de ser triste. Quero cultivar essa grande tristeza com que um dia nasci. Depois dela, também coloco nesse jardim, buquês de saudade do mundo. Não sei que mundo, mas dele sinto saudades. É uma saudade que aumenta quando vejo nesta beira d'água, por trás de uns muçambês, um bicho feio comedor de gente.

Esse bicho se chama "tempo". Ele nos corrói o tempo todo, e ainda fica ali por perto, mostrando afiados dentes, ou então se põe por trás da gente quando miramos espelhos. Também quando vemos nas paredes o amarelo dos retratos daqueles que se foram, é ele que vem à noite envernizar nossos olhos para dizer que está presente.

Esta água represada é uma noite esquecida dos caminhos de partir. Depois de muita andança a me esquivar do destino, só não me cansei de vez porque encontrei a palavra, combustível da viagem. A palavra me instiga a caminhar, e insiste em me dizer que com ela posso ficar mesmo nesta vertigem de ir. Mesmo cego da perna esquerda, e com a preguiça da direita, as palavras me arrastam se plantando onde passam e sei que mesmo estando indo já sei que vou aqui ficando.

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