Coluna

Batista de Lima: Albinha

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 29.05.2018

Peço permissão a Alba de Mesquita Frota para tratá-la como Albinha. Primeiro porque o livro que lhe é dedicado traz na capa esse delicado título. Segundo, porque sua maior amiga, Rachel de Queiroz, assim a tratava. O livro, uma coletânea de textos de seus amigos intelectuais, foi organizado por Milton Dias e Olga Stela. Quanto a Rachel, basta dizer que ambas foram colegas quando alunas do Colégio Imaculada Conceição. As duas, juntamente com Odorina Castelo Branco, se diplomaram no Imaculada em 1925. A essa época, Albinha tinha 19 anos e Rachel, 15. As duas foram muito amigas pela vida inteira. Mas, onde entra Odorina nessa história?

Odorina era interna do Colégio. Era órfã de pai e mãe, e juntamente com Alba e Rachel formaram um trio de amizade a que deram o nome de As três Marias. Rachel era a Maria Augusta, cujo apelido era Guta, Odorina era Maria da Glória e Alba, Maria José. Rachel foi para o Rio de Janeiro e tornou-se famosa escritora. Odorina casou-se com o médico e deputado Leão Sampaio e teve muitos filhos. Alba foi ser professora e depois funcionária da Universidade Federal do Ceará. A história das três compõe boa parte do livro de Rachel de Queiroz com o nome de "As três Marias", de 1939. As três amigas nunca deixaram de se corresponder e de se frequentar, principalmente Albinha que era amante das viagens.

Inicialmente, Albinha lecionou no Grupo Escolar de Parangaba. Depois passou a ensinar na Cidade da Criança, novo nome dado ao Parque da Liberdade. Mais tarde foi nomeada diretora daquela escola, em substituição a Dona Zilda Martins Rodrigues. Foi tão profícua a sua administração que posteriormente a escola recebeu o seu nome. Além de educadora, Alba Frota era cronista, pianista e escrevia vez por outra para o jornal Correio do Ceará. Acontece que, convidada pelo reitor Martins Filho, deixou a Cidade da Criança e foi nomeada funcionária da Universidade Federal do Ceará. Na UFC foi Oficial de Gabinete e depois Chefe do Serviço de Documentação e Estatística do Departamento de Educação e Cultura da Universidade.

O ingresso de Alba Frota na Universidade Federal do Ceará colocou-a em contato diário com os principais intelectuais cearenses da época. Eram principalmente os escritores que formavam o Grupo CLÃ. Por isso que, na coletânea de crônicas em homenagem póstuma aos dez anos de seu falecimento, aparecem alguns dos escritores daquele grupo literário, postando seus textos. O livro "Albinha", publicado em 1977, traz textos de, entre outros, Milton Dias, Artur Eduardo Benevides, Braga Montenegro, Carlos d'Alge, Fran Martins, Moreira Campos e Otacílio Colares. Esses componentes do CLÃ já vinham atuando na literatura desde 1942 e quase todos vieram compor os quadros de docência da Universidade Federal do Ceará.

Aos 61 anos, Albinha faleceu no mesmo desastre aéreo em que morreu o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, na manhã do dia 18 de julho de 1967. Dormira na noite anterior na casa de Rachel de Queiroz, na fazenda "Não me deixes", em Quixadá. Dada a repercussão da morte de Castelo, pouco se falou dos outros tripulantes do avião, inclusive da única mulher passageira. Dez anos depois, em 1977, é que foi organizada essa coletânea de crônicas sobre o perfil de Alba Frota. Ela que viajara por várias partes do mundo, em longas viagens de avião, foi vítima em um percurso de pouco mais de 100 quilômetros.

Dadas as qualidades marcantes da personalidade de Albinha, os escritores não pouparam palavras com que qualificaram sua bondade. Assim ela era: fada, flor, pássaro, gente, anjo, arco-íris, amanhecer, abelha, cantiga de roda, donzela, pacata, caseira, séria, sensata, ajuizada, caridosa, amada cotovia, humilde, altruísta, menina-e-moça, doce, delicada, viajeira, religiosa, terna, estrela, irmã, prestimosa, sincera, animada, comunicativa, maternal, ruidosa, alegre, saltitante, comunicativa, risonha, aurora, alvoroçada, Alba, Albinha. Por essas qualificações, dá para se concluir o quanto Alba Frota era amada pelos seus circunstantes que eram geralmente escritores e artistas, mas também pessoas humildes que dela se aproximavam.

Alba significa alva ou alvorada. Albinha é o diminutivo afetivo. Esse era o tratamento que os mais próximos utilizavam para se dirigir a Alba Frota. Entre os principais, estava Rachel de Queiroz, que por outro lado era tratada por Alba como Rachelzinha. E todos lembram da paixão principal de Alba Frota, que eram as viagens. Viajou pelos principais países da Europa e sempre trazia lembranças para os amigos e objetos de decoração para sua casa, a famosa Mansão da Donzela. Essa sua casa era o muro das lamentações de muita gente que ia lhe pedir conselho, socorro e coragem nos momentos difíceis da vida.

Por isso que Artur Eduardo Benevides compôs quatro sonetos em sua homenagem. B. De Paiva, em longo poema, revela ter sido seu aluno ao lado de Emília Correia Lima, miss Brasil de 1955, e cita também uma plêiade de colegas que se destacaram posteriormente na sociedade. Também enaltecem sua grandeza, além dos dois organizadores e dos já citados componentes do CLÃ, D'Alva Stella, Edgar de Alencar, Floriano Teixeira, Francisco Carvalho, Helenice Vieira Leite, Jáder de Carvalho, João Jaques, Lúcia Fernandes, Maria Conceição Souza e Myriam Gaspar. Esses intelectuais que esperavam ver Albinha subir direto para o Céu, de tão pura, singela e religiosa, viram-na descer à terra, naquele acidente para primeiro se despedir dos amigos e fechar a porta da Mansão da Donzela, para só depois subir ao Céu.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.