Coluna

Batista de Lima: Alana e o desmonte das ilusões

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 02.01.2018

Alana Girão de Alencar é psicanalista e colocou, no seu mais recente livro, o título "Detalhes da alma de alguém". Esses detalhes, que dão nome à obra, são tratados de forma poética em verso e em prosa. Para Edmar Gonçalves, "como um ser alado, Alana voa leve e solta entre palavras numa brincadeira". É esse lado lúdico que impressiona o leitor, porque brincar com brinquedos convencionais é fácil, mas brincar com palavras é arte. Ela não se preocupa com a ossatura poemática. Sua preocupação é com a poesia que não necessita de forma estabelecida para se manifestar.

Alison Ramos, no Prefácio, lembra que a autora mescla pintura e música. Depois acentua o fato de que há momentos em que o sagrado e o profano se conjugam, fazendo com que as palavras se robusteçam para dar conta do jorro talentoso de Alana. O prefaciador ainda nomeia o "excesso e a falta" como motivação principal para a explosão poética. Dessa explosão, cabe ao leitor recolher os cacos e recompor as imagens destroçadas. Essa reconstrução, que fica a cargo do leitor, comprova que a leitura do poema é completa, quando se completam as incompletudes provocadas pelo autor.

Logo no primeiro poema, Alana nos convida a trilhar um caminho que leve às trevas. Sabe ela que a poesia mais enigmática habita os cafundós das sombras. Poesia é arte noturna, marcada por subjetividades. Daí que o leitor, ao tatear pelos desvãos do verso, encontra, às vezes, preciosidades que outros que por lá vagueiam não conseguem encontrar. A leitura do poema é, portanto, uma reconstrução dos caminhos já traçados pelo criador. Por isso que Alana é consciente de que seu texto é apenas um ponto de partida de uma aventura que continua executada por aqueles que a leem.

Suas palavras, às vezes cruéis, fazem com que galguemos as "persianas invisíveis do tempo", com intenção de atapetar sua trajetória, sem se vitimar com o verbo. Ficamos a remendar a ponte que liga o trivial ao sublime como que preservando o destino poético da autora. É tanto que há momentos em que as imagens teimam em dançar sozinhas e nós ficamos atrelando-as para que dancem coladas aos pares, trios ou quartetos. Nessa nossa luta, repentinamente tropeçamos numa revelação: "Sou toda em odes".

Essa e outras imagens põem o leitor à deriva para só se salvar quando com suas imagens fotográficas, ela pula das situações "noturnas" para as "diurnas". Seus "lábios ciganos" põem à deriva tudo que é instável em seus versos. Se essas imagens aparecem desconexas, cabe ao leitor arrumá-las para dar o nexo de seu gosto. Assim, o livro de Alana não precisa de pontos finais, pois precisamos continuar a construção das suas imagens, trabalhando nos acabamentos. É preciso, pois, abraçar seu pouso e apaixonar-se a cada manhã pela decência voraz da pessoa amada.

Há, entretanto, momentos desse livro, que avançando do simples sensual, Alana, corajosamente se lança no viés erótico. É tanto que no poema "A gente", há um transbordar do casal em que os corpos porosos se entrelaçam liquidamente. Da mesma forma, "Cio", logo em seguida, é o prenúncio de "A morte". É a morte também como o "encontro das reticências da vida". É a morte derivada da vida, produto de uma disciplina, de uma coragem e de uma destreza. Assim, pode-se dizer que essa criadora de tão profundas imagens não precisa "aquietar o nervo torpe".

Por não aquietar esse nervo é que esse já é o quarto livro de Alana. Ela já produziu e editou "Trago do verbo", em 2002, "Poema canção", em 2003, "Nunca sei dizer direito", em 2006. Esse atual foi editado pela Tiprogresso, com 128 páginas, com desenhos de Edmar Gonçalves, José Ivan Santos e Mano Alencar, além de fotografias de Celso de Oliveira, Celi Melo Girão e Otávio Menezes. Esse aparato imagético, ao lado das metáforas da autora, tornam o livro bonito e digerível prazerosamente. Suas palavras são ardis em que o leitor tropeça e se espanta.

Esse livro de Alana precisa ser lido como uma degustação, sorvendo o sabor das palavras, reinventando com ela as ilusões da vida. Não importa se ela revela os desertos íntimos, afinal são desertos repletos de oásis em que as ventanias são sorvidas em goles. A autora faz poesia "como quem perde a hora depois de amar", como quem migra para dentro de si. É por isso que lá pelo meio dessa sua quarta caminhada ela verbera: "Em resposta ao meu avesso, crio". Assim, ela poderia terminar desta forma: Em resposta ao meu cio, crio.

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