Coluna

Batista de Lima: açudes e pescarias

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 05.06.2018

Fui criado entre dois açudes. É por isso que sou um pouco escamoso, arisco como um piau. Às vezes espinhento como um cangati. Meu avô e meu pai eram muito mais peixosos. Disputavam quem melhor lanceava tarrafa de dezoito palmos. O mais velho era superior. Com água no pescoço abria a tarrafa toda. Insuperável. O grande troféu era a curimatã. Era a rainha das águas, o mais saboroso prato. Traíra era comum. Corró não servia, só se fosse grande e se outros peixes não fossem capturados. Foi com essas lições que me tornei também pescador.

Minha pescaria era feita da beira da água. Ficava ali pescando as conversas dos pescadores. Eram histórias tão fantásticas e tão bem contadas que viraram verdades. Elas saíam da água molhadas e prontas para se reproduzirem. As palavras eram peixes pequenos que eu amarrava uns nos outros e formavam uma história. Cangaceiros invadiam cidades, Zé de Sousa Leão se apaixonava por Mariquinha, e Alonso e Marina eram modelo para minha imaginação. De tanto ouvir valentias lampiônicas, pensei em formar também meu bando. Ia convidar Terêncio Espinheira, Catanã, Belchior, Zuza Garcia e Janjão Pedreira para sairmos atacando povoados.

Esses pensamentos ficaram murchando à beira d'água. O açude, entretanto, foi ficando. Aquela água parada, parecendo um olho grande de Deus, observa os moradores inocentes do sítio. Há dias de pouca nuvem e muito sol em que o espelho da água ajuda na claridade das horas. É assim que aquele povo humilde, nem triste, nem alegre, por ali vai ficando, vivendo do que o açude fornece.

Quando escasseia o peixe, o açude fornece os produtos que as vazantes produzem. Raríssimas foram as vezes em que ele secou. Quando isso acontecia, parecia uma boca sem dente de um morto há muito morrido. Um açude seco é uma úlcera não tratada na face da terra que nos concebeu.

O outro açude, dessa dupla das águas cativas, é um pouco mais distante das casas. É o açude dos homens, porque o mais próximo, esse que às vezes seca, é o açude das mulheres, em que as roupas são lavadas e em que nos tempos memórias elas tomavam banho completamente despidas. Havia até o caso da tia que ao ouvir o ronco de um avião nas alturas, mergulhava e só vinha à tona quando o bicho voador se perdia nas nuvens. Outras histórias são pescadas daquelas águas quase caseiras. São histórias cheirando a peixes que se arrastaram até hoje, presas às enfieiras do tempo, contadas na calçada grande.

Tem aquela história de mesmo, contada em boca de noite, do dia em que Terêncio Espinheira, armado de faca e revólver, resolveu partir o peixe, pescado no açude velho. O pistoleiro pescara apenas a maior curimatã e queria por que queria partir o peixe ao meio com meu avô dono do sítio. Mas o pai de minha mãe asseverou que peixe único ele deixa com o pescador que veio de longe pescar. Espinheira revoltado queria partir ao meio a bela curimatã. Depois de ameaças de ambos os lados, o velho dono do açude partiu o peixe ao meio deu a banda ao forasteiro e a outra cheia de ova jogou no meio do açude.

Tem histórias que convalescem, pois os causos ficam velhos. É o caso do afogamento daquele menino empambado, que um tanto amarelado, por falta de nutrição, um dia resolveu cruzar um açude de grande curso de um vizinho abastado. Tentaram encontrar o corpo e nada por lá encontraram. Chamaram Maria Raimunda, que chegou com o sol da tarde, trazendo sete cachorros pretos e sete velas de cera numa cabaça partida. Acendeu as sete velas no fundo daquela trepeça, botou fumo no cachimbo e rezou a oração mais forte do livro da capa preta do santo São Cipriano. A cabaça posta na água foi levada pela brisa, como navio carregado dos feitiços da Maria e só foi parar de vez, onde jazia inerte o corpo já endurecido daquele menino amarelo.

Outros casos arrepiam só da gente ouvir contar, pois pescador que pesca à noite, sem a licença do dono, chega a ver sair das águas peixes com cara de gente. Tem o caso de um tal de Jonas, pescador de alheias águas, que um dia à meia noite, no açude da Sapé, fisgou um peixe tão grande que foi engolido por ele e nunca mais deu notícia. Pois esse açude arrombou-se no ano de cinquenta e cinco e levou na correnteza a principal vaca do dono, que amanheceu enganchada no mais alto da mangueira. Foram juntos cinquenta homens para descer das alturas aquela vaca sem sorte. Quem duvidar dessa história, o povo de lá recomenda que vá na manga da serra e pergunte àquela vaca salvada que ela confirma o causo.

Um dia pescando piaus, que se escondiam na cerca, na água rasa do açude, o velho Macário me disse que não deviam ter fechado o engenho das rapaduras. É que toda sexta-feira, quando a noite madruga no sítio, o engenho velho se mexe e sua fornalha oitentona produz rapadura e mel, rapa de gamela e batida, e só para de funcionar quando o clarear do dia bota todos a dormir. Disse também velho Cazuza, seu amigo de moagens, que na bagaceira falida, foram enterradas botijas que só não encontram hoje em dia porque o povo de agora não tem fé e reza pouco. Ouvindo essas histórias de açudes e pescarias me entretenho à beira d'água, recolhendo o que me sobra para depois levar ao dono para a correta partilha.

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