Coluna

Batista de Lima: a simbologia do mandacaru

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 30.01.2018

Há um quadro do pintor Antônio Bandeira com o título "Nordeste", de 1942. É uma das obras do início de sua carreira e foi premiada em exposição no Sudeste. É um pé de mandacaru de onde saem algumas cabeças de nordestinos. É como se eles estivessem vestidos com o verde do mandacaru. Aparecem, entretanto, no céu, camirangas e urubutingas como que festejando a refeição vinda daquelas cabeças com seus rostos esquálidos. É, pois, um Nordeste da seca que está retratado.

É bom saber que 1942 foi ano de grande seca no Ceará, o que na certa inspirou o artista na sua tão simbólica criação. Sabe-se que em ano de grande seca o mandacaru chega a ser a salvação dos animais e, às vezes, até das pessoas. Sua haste, depois de queimada para a eliminação dos espinhos, serve de alimento e até para saciar a sede dos animais, tendo em vista que o miolo dos cactos é viscoso e possuidor de bastante substância líquida. Entretanto, à primeira vista, tem-se aquela planta como apenas espinhosa e horripilante.

Da mesma forma, o homem dos nossos sertões secos, à primeira vista se nos apresenta como rude, agressivo e arredio. Quando dele nos aproximamos e conquistamos sua confiança, ele perde seus espinhos e então suas belas qualidades se apresentam. É hospitaleiro afável e companheiro. Assim como o mandacaru, aquele homem é áspero porque seu ambiente seco e solitário também o é. Como a seca é tão presente na nossa região, ela tem se tornado o tema principal de nossa literatura e até das criações de muitos artistas plásticos, sem contar o cinema e a música.

Na música "Xote das meninas", que Zé Dantas compôs para Luís Gonzaga, o "mandacaru quando fulora na seca / é sinal que a chuva chega no sertão". Enquanto outras plantas secam com a seca, o mandacaru se conserva verde e exibe sua flor. É uma flor da esperança a brotar no deserto em que a paisagem se torna.

E o sertanejo já começa a amainar a terra para o próximo plantio. Não precisa ninguém mandar, o mandacaru na sua fala florida dá sua ordem enfeitada. É evidente que outras experiências também preveem as chuvas, mas a flor do mandacaru contradiz tudo que a paisagem apresenta.

O mandacaru é planta nativa do Brasil, e além desse seu nome de origem do Tupi ainda recebe outros nomes como cardeiro, facheiro, manacaru e jamacaru. Sua família se espalha pela América do Sul e é possível encontrá-la em várias regiões secas dessa parte do continente americano.

O nome geral que recebe é cacto e tem além de algumas propriedades medicinais, entre indígenas, seus espinhos longos são utilizados por rendeiras nas suas almofadas com bilros. Tem parentesco próximo com a palma que é muito cultivada para alimento dos animais, e também com o xiquexique. Todos têm em comum o fato de surgirem principalmente em regiões secas.

A flor do mandacaru é geralmente branca e às vezes amarela. Simboliza a mulher sertaneja. Não se veste de cores berrantes e é tão pudica que se abre totalmente e com exuberância apenas à noite. Na claridade diurna ela se fecha preventivamente coberta com pele verde por fora. Não possui cheiro forte, da mesma forma que a mulher do sertão.

Romântica, é noturna, o que a salva do assédio de pássaros e insetos que atuam mais durante o dia. Quando se torna fruto avermelhado toma aspecto de um hímen, daí ser tão feminina.

O mandacaru é espinhento como forma de defesa diante da agrestividade de seu habitat. Seus parceiros de vivência, também de feições espinhosas, são a macambira, o manacá, o abacaxi, o croatá, a babosa e o agave. Aliás, do agave, tão presente na paisagem mexicana, produz-se a Tequila, bebida alcoólica consumida, hoje em dia, em praticamente todo o mundo. Outro fruto também de sua utilização como alimento muito nutritivo é o abacaxi já produzido em larga escala na sua mesma região de nascença.

O mandacaru é tão presente no Nordeste que chega a dar nome a certas localidades como Jamacaru, distrito de Missão Velha, no Ceará e Mandacaru, distrito de Gravatá, em Pernambuco. Além disso, muitas entidades culturais nordestinas trazem esse nome tão nosso. Isso sem contar sua presença em obras literárias e lendas que incluem sua presença na narrativa. Uma delas, que não é comprovada, conta que Lampião, nas suas andanças, encontrou uma mulher que não o conhecia. Perguntando a essa senhora sobre a perversidade do Rei do

Cangaço, recebeu como resposta que Lampião era fascínora, ladrão, estuprador, e muitas outras desclassificações horripilantes. Foi então que o cangaceiro se identificou e obrigou aquela pobre mulher a ir se abraçar com um grande mandacaru ali perto, até sangrar tanto que morreu.

Essa é mais uma presença do mandacaru na vida do nordestino, que com ele convive na vida real e até na simbologia do seu mundo subjetivo.

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