Coluna

Batista de Lima: a serventia da poesia

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 19.06.2018

Para que serve a poesia? Para que serve uma dama que só chega em cruciais momentos? São perguntas que se fazem àqueles vitimados por alguma falta. Importante é que ela chega e destrava o nó do peito. Sangra por ela a dor mais dorida. Ela chega quando todos já partiram, quando tudo se partiu. Ela cura os ferimentos e se inscreve cicatriz nos desvãos da alma. Essa dama nos mostra o ponto de partida, mas esquece de nos mostrar o porto de chegada. Vem montada em palavras, mas pode vir voando numa bala perdida, ou desabrochando no sorriso de uma criança. Daí que uns naufragam no percurso, outros de medo se acovardam.

A poesia frequenta todas as situações, mas possui suas preferências. Ela gosta de resgatar infâncias, tanto das pessoas como das coisas. Até da infância do mundo ela às vezes se ocupa. Com sua vaidade proparoxítona, apresenta-se como dama que sempre se renova. Ela gosta de cenários inusitados, como um violinista na copa de uma árvore tocando para os pássaros, ou brotando do som da água que concerta entre pedras. Quando se cansa dessa lida, ela às vezes repousa em rede tecida de palavras. E então a chuva que chia no telhado passa a chiar nos versos.

O poema é pois a rede que embala a poesia, é o descanso da lua depois de tanto vagar no céu, querendo o sol. Entretanto, como alma do poema, ela não se conforma com o desleixo do parceiro. Ela é salto no escuro, mergulho em água turva. Senhora de muitos mistérios, não avisa que vai chegar, nem se despede quando parte. Gosta das sombras e se ofusca com o sol. É música e dança, ternura e assombro. É concerto de espantos, é a tiborna dos dias. Poesia é a mão que se estira na iminência do abismo. É uma rua redonda numa cidade que expurgou suas esquinas. Para encontrá-la não adianta chamá-la. Ela gosta de aparecer quando menos se espera. Poesia não aceita convites, nem hora marcada.

Poesia é uma janela que se abre numa parede sem porta. É um grito que se perde nos longes de uma capoeira. É um abraço de quem perdeu os braços. Ela desata o passado ao amarrá-lo ao futuro. Ela é a grande fome de ir em frente, mesmo escavando infâncias. Traquinalmente se esconde atrás da porta, quando a procuramos no alpendre. Ela toca os sinos que do nada ecoam. Quando se atiça, capta a estridência do silêncio, vira a casa pelo avesso e põe-se à mesa, criando fomes. Se algum dia mostrar sua força toda, vai instalar finalmente o apocalipse previsto. Pois sua fúria de touro ferido e seu choro de alma deserta não se limitam no previsível. Ela é uma lua tonta que tenta entrar pelas frestas depois de uma noite boêmia.

A poesia excita a alma para que o mundo seja visto em sua dimensão revirada. Extrai da palavra seu sentido escondido. Ela trafega majestosa entre o suor da labuta e as primícias do idílio. Fogo e água ela fere e cura, dardeja e acaricia. Por isso que os eternos heróis nela se montaram para chegar até nós. Épica na velhice dos tempos, lírica nesta minha infância reconstruída, ela instala o drama do porquê aqui estou. Por isso dedilho sua lira e nela derramo as dores do mundo que em mim se alojaram sem convite. Esse muro de lamentações, até quando não sei, vai durando por aqui, alegre e triste, clarescuro, sutil e gritante. Não sei se me encanto mais com sua pele ou com os abismos que vislumbro.

Para que serve, entretanto, a poesia, se em alguns momentos ela aparece montada num tempo de lâminas afiadas, cortando o corpo sem trégua? Às vezes ela é um nado para o nada em busca de um grande silêncio de que não se conhecem as dimensões. Diante disso, contudo, ela ainda tenta avisar não poder não ser. Acredito que ela pode me salvar por estar amarrada ao chão com as correntes do verbo. Por isso vivo pedindo ajuda ao reino encantado das palavras, que me dê sustança e tino para aqui deixar cravada a imagem que imagino dessa dama de faces tantas. Quero deixá-la vestida dos seus melhores verbos, cantante das melhores músicas, em coro com aquelas musas que me encantaram e se encantam.

Serve para mim a poesia como alcoviteira pela minha paixão pela palavra. É ela que me induz a tecer palavras no afã de frases produzir. É ela que me incentiva a amarrar as chuvas para produzir os riachos que desaguam nos açudes da infância. Reta ou vértice, corte ou músculo, cordão ou novelo, ela é a seta que se tornou pássaro antes de atingir o alvo. Tese tecida no tear do texto, ela é teto e tática, trilha com que alcanço clareiras na sombria floresta dos signos que me significam. Entre o fuso e o casulo ela me põe e me ordena a tecer tempo com vento, nado com mergulho, linha com peão, pouso com voo e sombra com claridade.

Foi, pois, afinando contrários, com fogo nos braços da água, plantando sombras na claridade, que procurei aqui desvendar alguns mistérios escondidos no regaço da poesia. Ela tem corpo e tem alma, e parece um gume afiado de uma lâmina com que ferimos o tempo que nos retalha. A poesia nos serve para olhar, de dentro para fora, as entranhas das palavras e principalmente das coisas. Tem aspecto arredondado em que o fim que se espera fica atrás de seu começo. Poesia é aconselhada para dores e ameaças que às vezes ficam escanchadas nos lados esquecidos da alma. Poesia é esse grande novelo que trava nosso sonhar e que tentamos mudar em cordão que se transforma em casulo.

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