Coluna

Batista de Lima: A sagrada poesia de Pedro Bezerra

Batista de Lima

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00:00 · 10.07.2018
 

Pedro de Araújo Bezerra nos chega com um novo livro que é uma viagem sobre os escritos bíblicos. Depois de quase uma dezenas de obras publicadas com apelo social ou transbordamentos do eu lírico, ele nos traz agora uma coletânea de poemas voltados para aspectos bíblicos. É um percurso através dos livros dos profetas até culminar com uma abordagem mais profunda sobre São João. “O profeta decapitado” é o título da obra e o batizador de Jesus é o foco principal de sua abordagem. Esse livro apresenta um novo Pedro Bezerra que, ao mergulhar nos mistérios bíblicos, demonstra um profundo conhecimento dos escritos dos profetas e das profetisas.

Logo no início do livro já aparecem “Os profetas” com o dom da profecia, também a constatação de que “Israel é o grande celeiro desses homens iluminados”. Ao mesmo tempo ao tratar de Jerusalém, o poeta enfatiza as duas vezes em que a cidade foi destruída e depois reconstruída. A impressão que se tem é de que o peregrino quando observa Jerusalém pensa que está olhando a cidade, mas na realidade, o visitante é que é observado por séculos de história. A cidade possui sua fala que perpassa a história e faz brotar o fervor religioso.

Pedro Bezerra inicia o livro se referindo poeticamente às profetisas. Míriam, irmã mais velha de Moisés, previu “o povo de Israel atravessando o Mar Vermelho”. Depois vêm a profetisa guerreira Débora e Ana, que previa o nascimento de Jesus. Essas três mulheres são tratadas nos versos sem que a fidelidade à história seja atingida. Cada uma delas teve papel importante junto ao povo de Israel. Entre elas, Ana foi exemplo para as outras mulheres de Israel. Apesar da avançada idade, continuava com suas orações e pregações.

Os profetas aparecem no livro a partir de Natã. Ele, além de profeta, era poeta e guerreiro no reino de Davi. Não aceitava o adultério do rei Davi com a Betsabeia, mulher de Urias. Já com relação a Isaías, o autor considera como profeta maior, tendo em vista que seus ensinamentos extrapolaram as fronteiras de Jerusalém e Judá. Quando trata de Jeremias, Pedro Bezerra lembra que as reformas que esse profeta conseguiu para Jerusalém, ao tempo do rei Josias, foram todas anuladas pelo novo rei sucessor que se chamava Joaquim.

Ezequiel merece um estudo à parte não apenas pelo fato de prever a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, mas também porque a partir daí foi para a Mesopotâmia com seu povo para ser escravizado na Babilônia. Acontece que por lá Ezequiel foi pregar às margens do rio Cobar, afluente do Eufrates. Isso nos leva a Machado de Assis em “Dom Casmurro” com seu personagem Escobar de quem Bentinho tem ciúme por achar que o filho de Capitu, Ezequiel, seja filho de seu amigo. Capitu é a metáfora do mar e Escobar representa o rio.

Depois de Ezequiel, o autor passa para Daniel, que no cativeiro na Babilônia interpretou o sonho do rei. Tornou-se querido por Nabucodonosor, o que despertou a inveja dos súditos do rei que o denunciaram covardemente. Daniel foi condenado e lançado na cova do leões famintos, mas com a ajuda divina, os leões o pouparam. Já no caso do profeta Amós, esse ficou em Judá para condenar a volúpia e a concupiscência a que aquele povo havia chegado. Quanto a Abdias, foi vaticinando a destruição de Edom, e aceitando as previsões, que as escrituras abriram suas páginas e o colocaram no rol das mais festejados profetas.

Os dois últimos profetas ilustrados pelo poeta Pedro Bezerra são Naum que profetizou a total destruição de Nínive, e João Batista, o profeta decapitado. João, filho de Isabel com Zacarias é primo de Jesus e último dos profetas. Escolhendo o deserto como moradia, esse último dos profetas, no seu périplo precisava se alimentar de gafanhotos, ervas e mel silvestre para sobreviver. Enquanto Pôncio Pilatos governava a Judeia em vida dissoluta, o filho de Isabel vestia-se de pelos de camelo e tinha como companhias, gafanhotos, lagartos, serpentes, raposas, gazelas e pássaros. Mesmo assim denunciou a vida adúltera de Herodes com Herodíades e foi decapitado.

Como se observa, esse livro de Pedro de Araújo Bezerra traz uma mensagem diferente dos seus escritos anteriores. Não traz metáforas poéticas desconcertantes. A simplicidade com que ele trata dos assuntos bíblicos é uma forma de desmontar a linguagem figurada das escrituras. Não é prosaico, nem panfletário. Traz a leveza interpretativa das escrituras sem contestar os saberes que ali se encontram. Põe o leitor a meditar sobre as verdades bíblicas e ao mesmo tempo sugere, na sua semântica, a necessidade que temos de ler os livros sagrados. Essa leitura pode nos apresentar a capilaridade que caracteriza as religiões. E como esse patamar foi alcançado por Pedro de Araújo Bezerra, esse fenômeno nos conduz à leitura dos seus textos, inclusive à releitura, para maior entendimento de sua obra e dos seus saberes.

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