Coluna

Batista de Lima: A Revolução dos Padres

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 23.01.2018

Os duzentos anos da Revolução Pernambucana de 1817 foram pouco lembrados durante o ano que passou. Foi pouco para a importância desse acontecimento para o fomento da vocação republicana dos brasileiros. Pernambuco era, à época, a província brasileira com maior produtividade econômica, graças, principalmente, à produção açucareira. Surgiu então a açucaristocracia pernambucana, sempre pressionada pelo poder imperial através da cobrança crescente de impostos. Além disso havia restrições aos brasileiros na gestão dos cargos públicos. Tudo isso culminando com a disseminação das ideias iluministas, oriundas da Europa, que vieram a encontrar no Seminário de Olinda o local certo para seu incremento.

Desse Seminário de Olinda surgiram, então, os principais líderes do movimento revolucionário, nascendo daí a denominação de Revolução dos Padres. Agora, por conta do bicentenário dessa Revolução de 1817, faz-se necessário um retorno à cena libertária que surgida em Pernambuco, alastrou-se pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Aqui no Ceará, mais precisamente no Crato, o diácono José Martiniano Pereira de Alencar, falando do púlpito da Igreja de Nossa Senhora da Penha, em 3 de maio de 1817, proclamou a independência da vila, instalando ali a República. Estava assim instalada a Revolução no Ceará, contando ainda com o empenho de sua mãe Bárbara de Alencar e do tio Leonel Pereira de Alencar.

Entre o pouco material produzido sobre essa Revolução, há quatro artigos publicados, em 2017, na revista "Terra de Sol", órgão divulgador da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. No primeiro deles, "O irredentismo pernambucano", Maria Cristina Cavalcante de Albuquerque discorre, com muita propriedade, sobre as origens do movimento libertário no seu estado de origem. Ela começa com Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, o princípio de um nativismo autóctone que veio ser embrião de muitas lutas através dos anos, em busca de uma autonomia. Mostra também o potencial econômico da região com os ciclos do ouro, do algodão e da cana-de-açúcar. A prosperidade de Pernambuco fez crescer também as ideias libertárias.

No segundo artigo, "A República na Revolução Pernambucana de 1817", Cláudio Aguiar considera o levante como um movimento separatista. Recife e Olinda, com uma população de 40.000 habitantes seriam a capital de uma nova nação, abrangendo o Nordeste e o Norte do Brasil. Para comprovar essa ideia, o articulista aponta a expansão do movimento para a Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia. Mostra também a participação, com seu poder de convencimento, do Frei Caneca, oriundo do Seminário de Olinda. Ao final do artigo, há o registro da reação do governante da Bahia, o Conde dos Arcos, que foi fundamental para a derrocada do sonho pernambucano. Há então o desfecho da derrota dos insurgentes com a execução de dezenas de revolucionários.

Em seguida, é importante conhecer como foi "A Revolução de 1817 no Ceará". Com esse título, Heitor Feitosa Macedo mostra a importância de José Martiniano de Alencar para a deflagração da Revolução no Ceará. Alencar, filho de Bárbara de Alencar e pai do romancista José de Alencar, trazia do Seminário de Olinda, as ideias emancipatórias. Além disso possuía excelentes relações de amizade com o vigário da Vila do Crato e com seu político mais poderoso, no caso o Capitão Mor da localidade, José Pereira Filgueiras. A Revolução, no Ceará, que se desenvolveu no Crato, a partir do dia 3 de maio, pouco durou pois a 11 de maio Pereira Filgueiras já comandava a contrarevolução restaurando a monarquia.

Finalmente, o quarto artigo, de José Octávio de Arruda Melo, com o título "A Revolução de 1817 na Paraíba: Fontes e Evolução Histórica", envolve também o movimento no Rio Grande do Norte. Foi nesses dois locais em que maior se mostrou a participação de padres. Em cada localidade era o vigário figura fundamental para movimentar a população. Em Campina Grande, segundo o autor, os padres Virgínio Campelo e José Gonçalves Ourique "efetivaram ações revolucionárias". Em Pombal, foi o vigário José Ferreira Nobre que movimentou as massas em nome da Revolução. Em Souza, foi a vez dos padres Luiz Antônio e José Antônio Correia de Sá a liderar a Revolução, orientados pelo religioso cearense José Martiniano de Alencar. Em Pilar, instalou-se o governo provisório com os padres Antônio Pereira de Albuquerque, Inácio Leopoldo Albuquerque Maranhão, Francisco José da Silveira e Francisco Xavier Monteiro.

Após esses fatos narrados, pode-se dizer que a Revolução de 1817, surgida em Pernambuco e disseminada pelo resto do Nordeste, foi primeiramente fomentada pelos padres originários do Seminário de Olinda. Em um segundo plano, pode-se colocar a participação da Maçonaria. É evidente que os "patriotas", brasileiros com direitos diminuídos diante dos portugueses "realistas", contribuíram com o movimento. Importante é saber que durante setenta dias o sonho republicano vigorou no Nordeste e produziu um sentimento de mudança que veio produzir a Confederação do Equador, em 1824, e a Proclamação da República, em 1889. É evidente que muitos dos revolucionários, nesse longo percurso pagaram com a vida, a ousadia de mudança, mas nomes se inscrevem na história, como Frei Caneca e Bárbara de Alencar.

Há ainda lacunas nessa história que podem ser preenchidas como a contrarevolução comandada da Bahia pelo seu governante Conde dos Arcos. Também a história de vida de José Martiniano de Alencar se torna rica de detalhes curiosos para uma devassa. Um dos líderes mais importantes do movimento, saiu ileso da Revolução, elegeu-se Senador do Império, lutou pela maioridade de D. Pedro II e chegou a governar o Ceará. Também Pereira Filgueiras, autoridade maior no Crato, líder político amado pela população, inicia o movimento ao lado dos revolucionários e termina comandando a repressão a esse movimento no Cariri. Daí que esses quatro artigos, além de clarearem muitas dúvidas, provocam questionamentos que abrem lacunas para novos estudos sobre o tema. Essa é a função das boas pesquisas, provocar perguntas a quem delas se aproxima.

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