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Batista de Lima: A desinfância do Dias da Silva

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 12.09.2017

As águas analfabetas que despencam das nuvens sobre o Taquari de cima já recebem as primeiras lições de Canlima. Depois, no Taquari de baixo, aprendem a rezar com Santa Luzia. Só mais abaixo, onde a Barra nunca cansou de quebrar, Dias da Silva educa o riacho e manda as águas professoras para lecionar no mar. Essas águas, no entanto, roubaram a infância do Dias, quando o arrastaram para retê-lo interno nos seminários da vida. Queriam torná-lo padre, quando ele se queria pai. Assim se tornou pai de filhos e filhas. Devoto dos santos e das letras, resolveu ser escritor para não morrer de tristeza. Fez da palavra, catarse, e curou-se da infância roubada. Hoje cuida da meninice das palavras e está salvo.

Agora carrega, no entanto, o peso da vida na balança do tempo, que pesa mais para a banda do futuro, como se o amanhã seja apenas uma quimera escondida atrás da porta. Essa Dalila o atrai com feitiços que não o enganam, pois sabe ele que o Cronos de cutelo empunhado espera cada um de nós, pendurado na aldabra. Dias da Silva faz pantomimas à frente dele, enfraquecendo-o ao gritar seu nome quantas vezes puder, limando o verbo: "tempo, tempo, tempo, mil vezes te repito e te destempero". Prova disso é que, nesse seu trigésimo livro, repete 120 vezes a palavra "tempo" e arranja dezenas de apelidos para a morte, escavando da infância roubada, os garranchos sobrados em que pendura a esfarrapada esperança do hoje.

Esse descarrego de pessimismo vem embutido em 190 páginas com o título "Infância roubada (e outras coisas)". O leitor precisa ficar atento porque essas "outras coisas" são descoisas porque vêm também contaminadas da síndrome do "tempo" corrosivo. Assim é que sua saudade da infância é tangida do pé da serra para as beiradas do mar oceano pelos laridos estridentes dos cachorros "rompe nuvem" e "rompe ferro". Hoje encantoado no alto de um prédio de apartamentos, ele se cerca de palavras musculosas e vai se defendendo dos ataques da saudade do tempo em que não tinha tempo para do tempo correr com medo.

Existencialista ferrenho, faz bem ler os escritos de Dias da Silva. Com sua leitura a gente se põe na frigideira da vida e conclui que antes de virar fritura, ainda tem a chance de zombar da sina e ir raspando das beiradas dos dias os prazeres que se seguram nas suas bordas. É bem verdade que ele ataca de Sartre, Heidegger e Schopenhauer para justificar seu pessimismo, mas ao mesmo tempo monta uma sala de leitura com 15 mil volumes para que as gerações futuras de sua Mangabeira encontrem, naqueles livros, razões de viver. Desdizendo o que escreve, esse Dias acredita no futuro e também investe nele.

Filhos formadas e a vida reformada com aposentadoria, ele pratica o exercício da leitura dos clássicos aos populares livros, pondo o espírito em permanente engorda que para não explodir de vez, transfigura-se em escrita. Escreve para sobreviver. Mantém o jornal mensal "Binóculo", impresso de multinacional alcance, que mesmo editado com apenas 200 exemplares, circula por "Europa, França e Bahia". Seus textos ali veiculados expõem resenhas dos livros lidos ou memórias dos dias idos. Por isso que nesse seu mais recente livro pontificam as memórias dos seus tempos de menino no aconchego da baixio da Barra.

Nessa publicação da RDS Gráfica e Editora, neste 2017, ele coloca o pai e o avô sem esquecer o bom humor da avó. Conta o sonho da infância, reconstrói a casa de taipa, ressuscita a vaca preta com seu leite mais branco e bota o cachorro Elefante na serra, caçando tatu. Pinta de branco o carneiro, escava mais fundo a cacimba e enlarguece os caminhos de tanto andar por eles. Assim, põe eternidade nas coisas a quatrocentos quilômetros de distância e setenta anos de saudade. Dias da Silva é um nostálgico, cheio de inquietações, que tem encontrado nas palavras, o material necessário para reconstruir o que o tempo lhe roubou.

Com todo esse rapapé que faz com as palavras, arrisca também enveredar pela poesia, escolhendo como forma, certas trovas bem urdidas. Rima tédio com remédio, para dizer que "inquieto por condição / o homem é sem salvação". Mais à frente pede ajuda afirmando que: "É fácil toda descida / de serra, de monte e morro / mas, na descida da vida / há precisar de socorro". Também aproveita a trova para dissertar sobre o escritor, cuja salvação está na leitura, e que a perdição é resultado do silêncio do leitor. Isso é para dar início a um conjunto de outras trovas em que sua dialética interpõe felicidade e infelicidade, gente ruim e bicho bom, vida e morte, alegria e sofrimento.

Dias da Silva e incansável na sua lida. Escreve um livro por ano e lê outro por semana. Acredita em Deus, mas não bota muita fé no futuro. Vê com tristeza a falta de leitura por parte dos jovens, encantados com as cinco linhas das redes sociais. Não gosta de vestir terno com medo do laço da gravata, não nasceu para esses enforcamentos prematuros.

Como professor universitário, deixou uma legião de alunos que hoje militam no mercado de trabalho. Acadêmico da Academia Lavrense de Letras, honra sua terra, pai, mãe, irmãos e conterrâneos. Quanto à infância que diz ter sido roubada, ele finalmente a recupera com trovas e memórias e a põe nos braços dos leitores feito cantiga de ninar palavras.

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