Coluna

Batista de Lima: a cearensidade de Parsifal Barroso

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 26.09.2017

O livro "O cearense", de Parsifal Barroso, mais interroga que responde. Isso lhe dá mais garantia ao leitor de que muito ainda precisa ser pesquisado para entender como uma terra tão sofrida é tão amada por aqueles que a habitam. Djacir Menezes, no prefácio da primeira edição, fala de um amor radical de um povo que quanto mais sofre, parece mais amar essa sua terra. Esse mesmo prefaciador enfatiza a singeleza com que o autor trata questões cearenses como o banditismo, o fanatismo, o coronelismo, a miscigenação, a herança indígena e a presença cigana.

Neste 2017 esses questionamentos se renovam, tendo em vista que veio a lume, a segunda edição da obra, graças ao empenho de Igor Queiroz Barroso, neto de Parsifal. No prefácio a essa nova edição, Dr. Igor inicia com uma frase muito sintomática de seu avô, que demonstra o seu amor pela nossa terra: "O Ceará é o meu país". A partir daí, esse segundo prefácio vai estabelecendo um paralelo entre o intelectual, professor universitário, e o político que governou o Ceará e o representou no Legislativo federal. Precoce na política, ao se eleger deputado aos 23 anos, e professor dedicado à cátedra, Parsifal é uma personalidade curiosa.

Afirma-se que em pleno exercício da governadoria não se afastou da sala de aula, prova sem dúvida de sua dedicação ao magistério. Por isso que no prefácio dessa segunda edição, Igor Queiroz define-o como cidadão multifacetado. Prova é que da academia ao parlamento seu avô transitou com tanto zelo que não há mácula que o atinja até hoje. Enfrentou turbulências próprias de um governador, no campo político e na seara do clima imprevisível do semiárido. Mesmo assim, teve tempo para estudar a formação social de seu povo, o que deu origem a esse e outros livros que deixou como espólio.

Esse "O cearense", editado em 1969, pela Gráfica Editora Record, do Rio de Janeiro, é um livro curioso. Pela metodologia apresentada no começo, o leitor chega à conclusão de que esse seria o primeiro volume de uma série de outros que o autor tencionava produzir. Mas, logo em seguida ele já demonstra as dificuldades oriundas da escassez de fontes para uma pesquisa fundamental e ainda mais difícil para uma pesquisa de campo, tendo em vista a falta de empenho de órgãos que fomentam a pesquisa em nosso País. Mesmo assim, esse primeiro volume foi produzido, e na parte final, já se deduz que Parsifal Barroso tinha muito mais ainda por escrever sobre o assunto em pauta.

Vaqueiros, beatos, cangaceiros, mascates e almocreves desfilam nas retinas do autor para depois se transformarem em escrita. Parsifal como governador do Ceará andou pelas bibocas dos nossos sertões e conheceu seu povo e sua terra. Sua pesquisa antropológica foi da morfologia do homem sertanejo, passando pela curiosa geografia em forma de ferradura que se pressupõe ter sido, um dia, um braço do mar oceano. É bem verdade que em certos momentos ele mostra um afeto talvez telúrico pelas terras da Ibiapaba onde a nossa civilização "cabeça chata" criou seus primeiros ninhos civilizatórios.

Por falar nisso, ele carrega as tintas quando nomeia o ciclo do couro, de civilização, como o momento de maior crescimento econômico do Ceará. Entretanto é descrevendo o tipo cearense, confrontando-o com as intempéries do clima, que ele aponta o heroísmo dos que ficaram e a saudade dos que se foram. O estigma do êxodo do nosso povo apresenta o homem cearense como mobilizado por dentro ou para fora dos seus limites, demonstrando a herança de povos nômades como os primitivos índios, os ciganos e os retirantes tangidos pelas secas. O importante é que Parsifal, independente de tratar desse homem como nômade e até como sedentário, vai descrevendo sua formação social e seu patriotismo.

Como governador do Ceará por quatro anos, além de seus mandatos como deputado, tanto estadual como federal, vasculhou os sertões cearenses e conheceu seu povo, suas qualidades e seus problemas. Não é pois sem razão que considera o cearense como o povo mais brasileiro do nosso País. Dizendo isso, merece credibilidade pelas razões do conhecimento de seus conterrâneos não só como político que foi, mas também pela função de professor universitário que era seu apanágio. Parsifal Barroso nessa sua função de professor denuncia também a falta de incentivo à pesquisa em nossa terra, em todos os setores da vida social, inclusive em torno das curiosas especificidades do nosso linguajar.

Por fim verifica-se que "O cearense" é um livro também de feição didática, uma obra adaptável à sala de aula das nossas escolas de ensino médio. Ele traz saberes que conduzem à prática da pesquisa tão distante do nosso ensino básico. É um livro que aponta para a necessidade de uma arqueologia de muitos saberes que ainda se escondem por baixo do pano da indiferença. Afinal, não adianta querer transformar a universidade em um ambiente de pesquisa bem fundamentada, se o estudante do ensino fundamental e do ensino médio não tomou conhecimento da pesquisa, não foi preparado para saborear os sabores dos saberes que estão latentes na nossa cultura olvidada. Esse livro de Parsifal Barroso nos alerta para essas urgentes necessidades.

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