Coluna

Batista de Lima: a arte da boa leitura

Batista de Lima

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 24.10.2017

O ato de ler pode ser comparado a um momento de degustação. Para isso é importante comparar o alimento do corpo com o alimento do espírito. Como nos alimentamos fisicamente de quitutes que nos trazem sabores, também precisamos encontrar sabores nos alimentos que as leituras nos proporcionam. Sim, porque o texto possui saberes que podem ser saborosos. Daí que a leitura deve ser uma busca de sabor dos saberes. Se nosso paladar lectural não se apetece desses sabores, a leitura não se efetiva. É difícil digerir aquilo que não toca de forma prazerosa os nossos sentidos gustativos.

Uma biblioteca é um banquete armado para nosso deleite. Ali estão livros que nos agradam e outros que não despertam nosso interesse. Precisamos, pois, procurar o mais interessante para a nossa curiosidade. Não podemos nem devemos impor nosso gosto a outras pessoas. Cada um possui suas escolhas. Por isso é um erro quando impomos um mesmo livro para o saborear de vários leitores. A uns a leitura vai ser agradável, a outros vai ser uma tortura. Por isso que muitas vezes numa sala de aula o professor ativa o gosto pela leitura de alguns alunos, mas ao mesmo tempo afasta outros desse saboroso ato, quando impõe um livro só para a turma toda, como quem impõe o mesmo quitute para os comensais de um banquete.

Não se deve esquecer que a leitura pressupõe dois movimentos, um rastreamento e uma prospecção. O rastreamento se configura como um transitar na superfície do texto como quem nada sem mergulhar. Quem fica nessa dimensão não mantém contato com as preciosidades que estão no porão das águas. Afinal, se jogarmos uma joia preciosa na superfície de um lago, ela não boia, ela vai se acomodar no local mais profundo das águas. Assim é o texto. As melhores manifestações de um texto estão alojadas nas metáforas que são a parte sombria e mais carregada de significados latentes. Por isso que muitas vezes paramos numa leitura para pensarmos em algo que descobrimos.

Essas descobertas que fazemos na parte mais profunda do texto, e que nos leva a parar para pensar, é uma pausa que fazemos para a respiração dos sentidos. Como o mergulhador vem à tona para respirar depois de longo mergulho, o leitor vem à superfície textual para a busca do oxigênio do espírito. É essa prospecção que marca o segundo momento da leitura. É uma arqueologia que nos leva a uma escavação nas entranhas textuais.

Por isso que quanto mais fundo adentrarmos um texto, mais significa que esse texto é rico de preciosidades. Quanto mais ele for interminável, mais rico de significações.

A boa leitura exige um bom leitor. E o bom leitor, em parte se faz pelos seus estudos, pela sua curiosidade diante dos detalhes da vida, mas também conta com a contribuição do talento com que nasce. Nem todo mundo nasce com o grande fôlego dos mergulhadores. Acontece que o fenômeno do ensino / aprendizagem é um treinamento por que se passa para se aprender a ler o mundo. A escola nos dá um fôlego complementar àquele com o qual nascemos. A sua função é nos dar asas para voar, nadadeiras para nadar e fôlego para mergulhar. Assim equipados podemos descobrir tesouros ainda indevassáveis.

O que acontece hoje é que há textos em demasia para as nossas leituras. Vivemos no centro de um parque de diversões com tantas opções de brinquedos que não sabemos, feito crianças perdidas, qual deles devemos escolher. A nossa leitura do mundo começa por se prejudicar porque nos ofertam em demasia e nos privam dos detalhes. É preciso lermos as entrelinhas do mundo para não nos jogarmos nas profundezas sem sabermos nadar. Precisamos conhecer, nas margens, a profundidade das águas. Precisamos, realmente, rastrear para nos jogarmos na prospecção.

Um bom livro é um mar sem fim, um lago profundo, uma caverna inexplorada. Um bom livro é que nos proporciona a aventura da boa leitura. Por isso que a natureza com suas ações e reações ainda é o mais perfeito livro da vida. A natureza ainda é a grande biblioteca do mundo.

Por isso que o estudante precisa transitar do livro à floresta, da biblioteca ao oceano, do ambiente fechado da sala de aula à imensidão das dimensões espaciais. Nossos sonhos precisam de espaço para se dilatarem. O céu e o mar estão aí abertos aos nossos voos.

Finalmente pode-se dizer que um país não se faz apenas com homens e livros. Um país se faz principalmente com leitores, com criaturas que rastreiem e prospectem os melhores sabores dos saberes que se põem à sua frente. Antes de ingressar nesse grande parque de diversões à nossa frente, ainda dá para ver uma criança dormindo, um pássaro voando, um homem de bengala atravessando uma rua, uma nuvem no céu, um nascer do sol, um final de tarde, uma chuva, um relâmpago, o mar, o céu, o fogo, a terra molhada, a flor e o fruto.

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