Ensaio

Aspectos gerais da dispersão do eu

Arte Cearense

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00:00 · 09.03.2014

Após o poema "Partida", segue pela ordem, no conjunto que forma a série de "Dispersão", um outro poema que delineia, os passos seguintes da condição do eu-lírico. (Texto II)

Leitura do poema

Em "Partida" temos a sugestão de ascensão, agora em escavação a contra face. Tendo-se esforçado, num primeiro momento por escapar de uma existência cotidiana normal burguesa, não chega a deparar com outra alternativa de realidade que compense para o eu-lírico: "Desço-me todo, em vão, sem nada achar". Vale lembrar que com as ideias estetizantes presentes na revista Orpheu, criou-se uma poesia chocante, irreverente, com o fito de provocar o burguês, que simbolizava a decadência da cultura portuguesa, assim como a angústia que encerrava toda a Europa. A decisão de criar (verso 5) fica representada por metáforas: "brandir a espada", "ser luz harmoniosa", "ousar em chama genial". Mas, logo em seguida, esse impulso de ascensão fracassa: "Onde existo que não existo em mim?". O poeta está entre a consciência de dois opostos incompatíveis.

É a partir dessa condição de oposição (divisão), tema central sob diversos ângulos no conjunto de sua obra, que a linguagem estará engendrada. Se tomarmos apenas a primeira estrofe do poema "Além tédio", por exemplo, veremos que a ocorrência de oposições e antíteses praticamente se dá em todos os versos: "expira/vive; tristeza/horas; belas; as não ter / nunca vir a tê-las":

As correntes

É possível considerar que tenha havido pelo menos duas grandes correntes que balizaram a produção poética portuguesa do início do século XX, de um lado, a poesia identificada com o signo da Saudade, reconhecida também pela denominação de Saudosismo; de outro, balizada pela expressão denominada Sensação. Para Fernando Pessoa - "A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação." (apud Paixão, 1991). O Sensacionismo constituía, sobretudo, uma estratégia de reflexão e transformação, tendo em vista as novas formas de expressão que emergiam no limiar do século XX, as quais mantinham conexão estreita com uma Crise de identidade", que afetava diretamente a literatura moderna e que se particularizava no âmbito do contexto português. Os preceitos sensacionistas contemplavam a obra dos poetas de Orpheu, notadamente Sá-Carneiro o qual colocou luz à poesia emergente no século XX. Um tema crucial que sempre preocupou os escritores na relação com o mundo que os rodeia, ou seja: o da natureza das sensações. Leiam-se os versos de "Distante melodia": (Texto III)

Leitura do poema

Neste poema, o tema do passado é relembrado na relação espaço-tempo; em que "os sentidos eram cores". Constatamos o uso do tempo verbal pretérito imperfeito (oscilava, havia etc.), que adequadamente indica a imprecisão de modo e lugar ocorridos. Somando-se a isso, o referido "tempo-Asa" (verso 4) vê-se nomeado e relembrado (a partir do verso 5) através de seus atributos ligados a cor, som, luz, odores etc. Esse tempo-Asa sugere a vivência de um espaço amplo e livre que se transforma em saudade. Há um embate entre um tempo passado e um presente, e este surge como um momento destituído de cores, contrastando com o tempo azul de outrora. A ausência de cores reitera a falta de atrativos da existência atual. A aproximação entre os sentimentos e as sensações constitui outra marca do poema, e os elementos da natureza são retratados em harmonia com o estado do poeta, e o ouro e as estrelas reafirmam, plenamente, a beleza do momento.

A luz ocupa um lugar de destaque em seus versos, que simbolicamente pode estar relacionada à representação de uma iluminação interior, pois constantemente associada à cor azul ou anil (que sugerem o estado ideal), " Vem-me lembranças doutro Tempo azul".

Trechos

TEXTO II

Numa ânsia de ter alguma coisa, / Divago por mim mesmo a procurar, / Desço-me todo, em vão, sem nada achar, / E a minh 'alma perdida não repousa. /// Nada tendo. Decido-me a criar: / Brando a espada: sou luz harmoniosa / E chama genial que tudo ousa / Unicamente à força de sonhar ... /// Mas a vitória fulva, esvai-se logo ... / E cinzas, cinzas só, em vez de fogo... / Onde existo que não existo em mim? /// Um cemitério falso sem ossadas, / Noites de amor sem bocas esmagadas / Tudo outro espasmo que princípio ou fim ...

TEXTO III

Num sonho de íris morto a oiro e brasa, / Vem-me lembranças doutro Tempo azul / Que me oscilava entre véus de tule - / Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. /// Então os meus sentidos eram cores, / Nasciam num jardim as minhas ânsias, / Havia na minha alma Outras distâncias / Distâncias que o segui-las era flores /// Caía Oiro se pensava Estrelas, / O luar batia sobre o meu alhear-me ? / Noites-lagoas, como éreis belas / Sob terraços-lis de recordar-me!... /// Idade acorde de Inter-sonho e Lua, / Onde as horas corriam sempre jade, / Onde a neblina era uma saudade, / E a luz - anseios de Princesa nua ... /// Balaústres de som, arcos de Amar, / Pontes de ,brilho, ogivas de perfume ? / Domínio inexprimível de Ópio e lume / Que nunca mais em cor, hei-de habitar ... /// Tapetes de outras Pérsias mais Oriente ... / Cortinados de Chinas mais marfim .. . / Áureos Templos de ritos de cetim .. ./ Fontes correndo sombra, mansamente ... /// Zimbórios-panteões de nostalgias, / Catedrais de ser-EU por sobre-o mar .. . / Escadas de honra, escadas só no ar .. . / Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias ... /// Lembranças fluidas ... Cinza em brocado ? / Irreal idade anil que em mim ondeia ? / Ao meu redor eu sou Rei exilado, Vagabundo dum sonho de sereia ... "

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