Arte Cearense

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00:00 · 09.02.2014

Pintura de Belchior
Sem Título

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, Belchior, nasceu em Sobral, 26 de outubro de 1946. Além de poeta primoroso e compositor de melodias inaugurais, dedica-se às artes plásticas

Poemas de Ricardo Muniz
Soneto com areias

Os teus passos impressos no crepúsculo
são rios de algodão, sílabas de nuvens.
As areias do mar - pássaros líquidos -
voejam em tua sombra, em teu país.
Os teus olhos na linha do horizonte -
e presos ao sabor de espumas curvas -
enlouquecem as rotas dos navios,
desorientam peixes e crustáceos.
Este sal que conservas em tua pele -
herança de outro mar de muito além -
é o mesmo que alimenta meus desertos
e preserva as janelas do meu pão.
O crepúsculo, pleno de teus passos,
são fios que se perdem de tão lassos.

Soneto com escumas

A cidade inaugura outros tecidos
quando o sol se transmuda em realejo.
As jangadas branquejam os vestidos
que as nuvens vão cerzindo em seu voejo.
As aves, nas espumas, recuperam
a espiga que o verão deixou acesa:
há pássaros mendigos, pois esperam
as côdeas que pendem dessa mesa.
As sombras se derramam sobre as dunas.
Coqueiros se contorcem - girassóis. As águas se confundem com as escunas
que tinham nas estrelas os faróis.
A tarde vem do mar, e de seus músculos
desprendem-se as areias do crepúsculo.

Soneto com alqueires

O meu avô, na roça, entre formigas,
regando, com suor, os seus alqueires;
a mão, entregue a pétalas e a urtigas,
sob a brasa do sol, tecendo alfeires.
A mesa era um alfobre de silêncios.
A palha do chapéu, a cal do linho,
as sandálias no alpendre, o relho pênsil,
os pássaros pendendo dos moinhos.
A noite vem chegando, e seus murmúrios
abrem outro país na cerca extrema.
Meu avô perlustra as telhas; e os augúrios
fazem jorrar o sangue das juremas.
O céu é todo treva, e sua raiz
se espalha na memória - almofariz.

O país do meu avô

Por entre paredes úmidas,
(cuja cal não se consome)
derramam-se sombras túmidas
sobre a pele de teu nome.
Não têm percurso das águas,
nem as sandálias do vento.
Por isso jamais deságuas
para além desse momento.
O teu cavalo de brisa
adormece na varanda.
Assim logo se divisa
o país por onde andas.
E cercado por cancelas
perdes o voo das janelas.

Sobre o autor

Ricardo Muniz nasceu em Fortaleza. Além da poesia, cultiva, também, os gêneros ensaio e crônica

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