ARTE CEARENSE

Arte Cearense

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00:00 · 02.02.2014

Pintura de Mano Alencar

Sem Título

Mano Alencar nasceu em Juazeiro do Norte. No campo das artes plásticas, dedica-se, com afinco e marcar singulares, à pintura, ao desenho e à escultura. É ainda compositor e poeta, com quatro livros publicados

O autor

José Albano (Fortaleza, 1882; Paris,1923). Sua obra encontra-se reunida no livro "Rimas"

Pintura de José Albano

I

Amar é desejar o sofrimento

E contentar-se só de ter sofrido,

Sem um suspiro vão, sem um gemido,

No mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento

É deste mundo enfim tão esquecido,

É pôr o seu cuidar num só sentido

E todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,

De rudes pescadores rodeado,

Caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,

É ser enfim vendido por dinheiro,

E entre ladrões morrer crucificado.

III

Aos outros hei de parecer contente,

Guardando na alma a dor, fingindo o gozo,

Mas não é de verdade venturoso

Quem tantas mágoas, como sinto, sente.

E embora viva rindo alegremente,

Iludir a mim mesmo já não ouso,

Que para um coração tão saudoso

Não há nenhum engano que se invente.

Fica em tudo vencido o meu desejo

E pouco a pouco já me persuado

Da dura condição em que me vejo.

E só resta um consolo neste estado:

Pode tornar-se amor mais malfazejo

Mas eu não posso ser mais desgraçado.

II

Mata-me, puro Amor, mas docemente,

Para que eu sinta as dores que sentiste

Naquele dia tenebroso e triste

De suplício implacável e inclemente.

Faze que a dura pena me atormente

E de todo me vença e me conquiste,

Que o peito saudoso não resiste

E o coração cansado já consente.

E como te amei sempre e sempre te amo,

Deixa-me agora padecer contigo

E depois alcançar o eterno ramo.

E, abrindo as asas para o etéreo abrigo,

Divino Amor, escuta que eu te chamo,

Divino Amor, espera que eu te sigo.

IV

O cisne naquela hora extrema, quando

Vem caindo a perpétua noite escura,

Do espesso bosque a solidão procura,

Saudosissimamente suspirando.

E o novo som melodioso e brando,

Cheio só de desgosto e mágoa pura,

Os piedosos peitos sem ventura

Ao longo e no perto vai dilacerando.

Assim também, sujeito à dura sorte,

Espalho o meu queixume no ambiente,

Para que me alivie e me conforte.

Sinto a mesma tristeza que a ave sente.

Pois de amor torna a vida numa morte,

Que me tortura e mata lentamente.

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