Arte Cearense

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00:00 · 11.01.2015

Pintura de Aldemir Martins

Sem Título

Aldemir Martins nasceu em Aurora - CE, aos 8 de novembro de 1922 e faleceu em São Paulo, aos 5 de fevereiro de 2006). O artista plástico dedicou-se, além da pintura, à ilustração e à escultura. Produziu uma famosa sequência de galos e de gatos.

Poemas de Virgílio Maia

Sonetos das Três Espadas

Foi quando aqui tinindo e retinindo

Três espadas de ferro, se forjou

A loura lenda de um combate antigo

Que às pedras de uma praia se cravou.

Ao gume da primeira repartido,

O vento narra aquilo que narrou

A repetida saga, os duros gritos

E o bélico drakar que soçobrou.

Havia, dizem, um cão, mas se tornou

Na sombra da segunda e, seus latidos,

A voz desesperada do pavor.

A terceira um guerreiro destemido

No próprio largo peito a embainhou

E até hoje a sustém. Sem um gemido.

O Quinze Revisitado

Percorro novamente este romance

Espiando seu áspero caminho

De fome e seca e sol sem que me canse,

Pois retirante vou em redemoinho,

Cumprindo minha sina lance a lance

Na paisagem queimada em desalinho.

De repente me areio e num relance

Não sei mais onde estou nem adivinho.

Olho sedento os secos carrascais,

O seixo reluzente, este universo

Onde tudo é tão cinza e nada vinga.

De onde a chuva se foi, não volta mais,

Bebida para sempre neste verso:

Vastidão arranhenta da caatinga...

Soneto do Fuzilamento

Um deus de pedra assiste à dura cena

E o dia desce em tragos de tequila.

Sem esperança: a esguia espada erguida

A tarde fendirá, em ordem horrenda.

À toa um padre asperge a água-benta,

Mas a terra tem sede é de justiça.

Temerosos das armas fraticidas,

Do sombreiro os que atiram fazem vendas.

Mire: um povo a si mesmo se aniquila,

Que só vencidos há nessa contenda,

Igualado o que cai ao que fuzila.

Ó México de guerras e de lendas,

Na procura de altares e oferendas,

O que será encontro ou despedida?

Natureza-Morta

Aqui jaz a perfeita simetria

De cônica figura posta à mesa.

Crua e nua de palha se revela

Nas pepitas dos grãos, recém-colhida,

Respingada de chão, de chuva e céu,

Num poema de Cora Coralina,

Ou quebrada nas terras algonquinas

Do óleo e telas de Norman Rockwell.

Taino mais de aztecas linhas puras,

É bela e exata espiga arada à mão,

Esperança de messe, sol junino,

Pronta para entregar a imagem sua

Aos cartazes das festas de São João

E às embalagens de massa de milho.

Sobre o autor

Virgílio Maia, da Academia Cearense de Letras, é autor de "Rudes Brasões - ferro e fogo das marcas avoengas

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