Arte Cearense

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00:00 · 26.10.2014

Pintura de Ascal

Sem Título

Ascal - anagrama do artista plástico Átila da Silva Calvet - nasceu em Fortaleza, em 1943. Ao longo de tantos anos dedicados às artes, ele já expôs no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e na Espanha, tendo trabalhos espalhados em diversas coleções. Um artista singular.

Poemas de Virgílio Maia

Padaria Espiritual

Vinte e Cinco de Março, 1007:

Corre tranquila a brahma no balcão,

É quase meia-noite e um violão

Em batidos acordes se repete.

Esta velha bodega tem caminhos,

Ecos da noite desta Fortaleza;

E se da madrugada faz-se presa,

Não se contém a cana dos burrinhos.

Bar afamado, não lhe sei rival,

Onde se encontra, todo santo dia,

A fina flor da vasta boemia,

Recebendo contrita e mui louçã,

À batuta de Monsieur Vincent,

A comunhão do pão espiritual.

Marc Chagall

Um rabino improvável, voador,

Verdes barbas exibe pelo céu,

Enquanto branca noiva em esplendor

Acende beijos de uvas e de mel.

Montava em cada tela um carrossel

Que rodopia ainda a toda cor,

Onde ri, disfarçado de Pierrot,

Gnomo inverossímil solto ao léu.

Com certeza criou por linhas tortas,

Em resgate daquelas almas mortas,

Sacadas de fantástica cidade

Por ele, que acenando em despedida,

Já sobraçando décadas de vida,

Foi só criança de uma certa idade.

O gato que ri

Antiquíssima fera, a que se esconde

No amarelo dos olhos deste gato.

Se em casa ostenta sempre um ar de conde,

Exigindo do mundo fino trato,

Quando é noite seu íntimo responde

Aos anseios atávicos do olfato

E sorrateiro vai, quem sabe aonde?,

No veludo do passo tão exato.

Numa trilha de estreito e longo muro,

Veste, negra pantera, um véu escuro

E partindo dali ele se some.

Voltará amanhã, o sol a pino,

Com astuta humildade de felino

Aos miados expondo sua fome.

Cheio dos paus

Há, pelo ar, aguapés e passarinhos,

Cheiro bom de canela pelo espaço,

Alvoroçantes asas nos caminhos:

O mais não sei, é tudo quanto eu acho.

O sol reluz redondo e satisfeito

Caso em rubras talhadas melancias

Atrevidas se expõem à luz do dia

E no bar desta esquina há um sujeito.

Quanta luz! Mais luz!, diria Goethe

E no calor da luz há tanto encanto,

Há fogo, há sol, há sal em todo canto,

Que tudo é bom e belo cata-vento

Tem seu leque fitando os horizontes

Destas nuvens que nunca se repetem.

Sobre o autor

*Virgílio Maia, além de poeta, é cronista, ensaísta e pesquisador. Da Academia Cearense de Letras

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