Arte Cearense

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00:00 · 12.10.2014

Pintura de Nice

Sem Título

Nice Firmeza nasceu em 1921, em Aracati. . Mudou-se ainda jovem para Fortaleza, onde se interessou pela arte. Delicada e inquieta, Nice não se contentou com os gêneros das artes plásticas; desse modo, ela se fez artista, também, a partir dos saberes da tradição popular

 

Poemas de Virgílio Maia

Demanda

Por tanto tempo, amiga, te busquei,

Que fiz da minha busca coisa insana.

Os livros mais remotos vasculhei,

As palavras do Cristo e do Gautama.

Busquei-te até às mãos de uma cigana,

Nas linhas desta mão, mas não te achei.

Prossegui mesmo assim minha demanda,

Cumprindo o fado a que me destinei.

E quando, agora, a busca já cessara,

Me recolhendo à calma destes versos,

Vejo aqui no papel, sempre sereno,

O teu rosto querido que buscara,

Quase te ouvindo a voz, estás tão perto?,

No derradeiro verso do soneto.

Soneto C

Cem sonetos acolho neste arquivo:

Se dos cem cometi alguns a esmo,

Outros são de tal forma meus amigos

Que são, eu sei, retalhos de mim mesmo.

Falam de quase nada e quase tudo:

De um avô, de um menino e seu destino,

Dos meus pais, Fortaleza, de alguns bichos,

Dessa luz que incandesce e deste escuro.

São sonetos, não passam dos quatorze

Versos vertidos, postos nesta fôrma:

Dez sílabas contadas e medidas.

Rimas, poucas, e quase sempre pobres.

E não posso dizer que disse todas,

Todas as coisas que merecem ditas.

Soneto das Seis Moedas

Repassadas por tanto, tanto tempo

Desenterrei um dia seis moedas:

Bimilenar, bovina e paciente,

Efígie numismática, bela e grega.

Ridente garanhão em disparada,

Perseguindo, fogoso, as éguas celtas.

Dois mil anos de força nos contemplam:

Taurina força, helênica e soberba.

Perfil equino heróico de Cartago

Sobreviveu às eras e ao Delenda.

Relinchando desérticos luares,

Brabo Simum ao vento a crina eleva.

Mulher-deusa Tanito o cavalgou,

Num estáter dourado, nua e bela.

Soneto de Chuva e Fome

Era noite de chuva, dessa chuva

Que, quase no equador, encharca as almas

E o borrifo das telhas tira a calma

Das desmontadas camas das viúvas.

Era a chuva a alegria das formigas,

Que mais se agitam quando vem a chuva

E se comportam qual fosse viúva

Que, à chuva, despertasse coisa antiga.

Foi numa noite assim que aconteceu

À cadela faminta que fuçava

Restos molhados nuns baldios fáceis,

Parecer essa fome que bramava

De sempre, sob a chuva, um himeneu:

A velha fome farejando fósseis.

Sobre o autor

Virgílio Maia é membro da Academia Cearense de Letras. Cultiva a crônica e cultura popular

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