Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 07.09.2014

Sem Título

O artista plástico Francisco Vidal Jr. Nasceu em Fortaleza. É arquiteto, graduado pela Universidade Federal do Ceará. Detentor de inúmeros prêmios, sua arte tem como marca singular os caminhos da abstração, incidindo, desse modo, sobre a imaginação do público

Poemas de Linhares Filho

Ao Poema

Quero-te, Poema, misterioso e grave,

Traindo ser o fruto de uma sina.

Fluente e sonoro, um rio e um canto de ave,

Do sonho a voz que o peito prende e ensina.

Mais importante é que, por qualquer chave,

Se chegue ao que em ti luz e se imagina,

E que, por teu influxo, a alma se lave,

A galopar segura a fulva crina.

Verses embora instintos ou .O entrave,

Ou decepção que o bem nos assassina,

Constituirás -, provinda de uma clave

Superior -, essa voz tão peregrina

Que, mesmo se punhal, que em mim se crave,

Ao cabo me liberta e me fascina.

Infância Cultivada

Fujo, neste começo de velhice,

Para a terna magia de minha infância,

Como se já maduro não me visse,

Cultivo a fantasia num mundo de ânsia.

Sinto, porém, que não se contradisse

Tanto o que se ficou lá na distância:

Qual se no poeta a criança se revisse,

O vezo de sonhar tem sua constância.

Pois uma confidência de precoce

Menino à árvore, um dia, no passado,

Do poético dar-me-ia toda a posse.

Verdade é que o menino é pai do homem,

Como se lê no livro de Machado,

E assim as ilusões em mim não somem.

Hora íntima

Na Alemanha, de novo celebramos

Nossa união de amor. São trinta e cinco

Anos de um adorar entre reclamos

Dos dois por mais prazer, embora o vinco

Outonal já nos manche e seque os ramos

Do imo, em nós contrastando o chumbo e o zinco

Com o verão exterior. Porém amamos:

No peito um marco desta hora finco.

Pássaros cantam, esperando agosto,

E tecem sob o sol um clima terno

Para um idílio isento de desgosto.

Caiam depois os temporais do inverno:

À lareira, estará cada um disposto

A confessar ao outro amor eterno.

Iracema

Da terra imagem, vinda da amargura

E atrelada à volúpia de uma raça,

Disponível está para a ternura

Do estrangeiro fervor, que tonto a abraça.

Mas a dor, já no instante da procura,

Sela a união com o signo de quem caça:

Cumpre a flecha o ritual de uma aventura

E um sangue, após, com o outro se congraça.

Íntimas do segredo da jurema,

Árvores sofrem a dor do amor fecundo,

A qual o mar lamenta ainda na praia.

E ao desaparecer na curva extrema

Certa jangada à busca de outro mundo,

 

Cala-se dentro em nós uma jandaia.

Sobre o autor

Linhares Filho é membro da Academia Cearense de Letras. Cultiva, além da poesia, o ensaio

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