Arte Cearense

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00:00 · 10.08.2014

Pintura de Fernando França

Sem Título

Fernando França é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Nas artes plásticas, sua principal marca é a inquietude que o faz sempre buscar caminhos novos, explorando, em toda a intensidade, os mais diversos caminhos que a criação lhe propicia

Poemas de Dimas Carvalho

XXVIX

A noite dos profetas, dos leões,

Das sereias, das bruxas, dos segredos,

Ovo que fecundou todos os medos,

Noite das onças, dos escorpiões;

Noite dos galos e dos esporões,

Rasgando as velhas máscaras tão sujas,

E quando o voo cego das corujas

Corta a mortalha das assombrações;

Noite que come os olhos da cidade

E que povoa o céu de pesadelos

Acorrentados pela insônia atroz;

Noite que habita o chão da eternidade.

Estátua má que fez com os seus cabelos

A sinfonia de quem sou a Voz.


XXXI

Eis que mudo de rumo a cada passo

E que comigo mesmo eis que me assombro:

Se olho ao meu redor, só vejo o espaço

Da ruína que sou, do próprio escombro

A que me reduzi, e o que não faço

Ou o que chego a fazer só apressa o tombo,

Pois não fui eu quem me armou este laço

Do qual sou prisioneiro e de quem zombo.

Meu caminho perdi no nascimento

E se na estrada prossegui, sozinho,

Contrário a tudo e irmanado ao vento,

Foi porque, como o vento, passageiro,

Se construí da ausência o meu caminho,

Fui também do meu laço um prisioneiro.


XXX

Cidade das cem portas, dos portões

Multiplicados pela sombra imensa;

Sobre esta cidade a Lua pensa

Os pesadelos e as assombrações.

Todas as coisas são escuridões

E as pessoas todas são doenças.

Esses, que à luz do dia têm crenças

E que fingem não ser escorpiões.

As ruas e avenidas são desertas:

Jardins que só florescem às horas mudas,

Sótãos, porões, revelações das frestas.

Ó cidade severa das cem portas,

Das cem mil portas que não foram abertas

E dos punhais que me perfuram as costas.


XXXII

Quem enfrentou piratas, Rocinantes,

E naufrágios, prisões de cento a cento;

Quem escutou a grave voz do vento

Sibilando nas velas flutuantes;

Quem assumiu destinos navegantes

E ultrapassou fronteiras legendárias,

Levantando as bandeiras visionárias

Por terras nunca divisadas dantes;

Quem ouviu o chamado de Netuno

E acometeu o Turco e Adamastor

Sabe a glória e a dor de ser primeiro;

Quem não perdeu dos girassóis o rumo,

Foi soldado, marujo, semeador,

Antepassado-Mor do Brasileiro.

Sobre o autor
Dedica-se ao conto, ao ensaio e à poesia. Escritor premiado. Professor da Universidade do Vale do Acaraú

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