Arte Cearense

Arte Cearense

ler@diariodonordeste.com.br

00:00 · 03.08.2014

Pintura de Fernando França

Diálogos

O artista plástico Fernando França publicou, em 2011, a obra "Diálogos" (Fortaleza: Expressão Gráfica", na qual estabelece uma intertextualidade com diversos artistas plásticos de nossa contemporaneidade, pintando-os um a um, bem como detalhes de suas obras

Poemas de Virgílio Maia

Xilogravura

Queda a calada tábua sobre a mesa,

Pura e sã qual papel antes da tinta

Ou quadro de pintor que se requinta

Em deixar sua tela sempre ilesa.

Cortante canivete, a ponta acesa,

Traça-lhe entalhes, mossas, sem que sinta

Transformar-se da tábua a singeleza,

O que ela já talvez não mais pressinta.

Lnsculpido, um poema se repete.

E dos talhes do tosco canivete

Salta um mundo de santos e dragão,

Que mal-agradecidos, sem demora,

Cavalgando cordéis se vão embora,

Deixando suas lascas pelo chão.

Fotos

Deste antigo retrato, com firmeza,

Meu avô me interroga bem de perto,

Com aquela usual branda aspereza

Que, criança, me punha em desconcerto.

Na lapela, uma flor, que ele por certo

Deixou emurchecida sobre a mesa

E do alto colarinho o branco aperto

Incomodava-o um pouco, com certeza.

Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,

Certamente renovam velhos planos

De terra e gado, açudes e destino.

No fervor de seus vinte e tantos anos,

Miram-me assim, mais novos do que eu,

E assim mesmo, para eles sou menino.

Marinha

O sossegado barco sobre a areia.

Trespassada de sol, posta ao relento,

Velha rede de pesca brilha ao vento

Semelhando de aranha enorme teia.

A maré, meio baixa, meio cheia,

Plana praia percorre em doce intento

De chegar à menina, em branco alento

Ao mar, maré, a tudo toda alheia.

Lá está mar adentro, bem defronte,

A solidez de lítico iceberg,

Que das ondas redondas colhe algumas

E por cinturas d'água já lhes ergue

Aos mil beijos de firme negra fonte,

No incessante noivado das espumas.

Bananeiral

Negra fertilidade umedecida

Pelos mornos cristais do cata-vento.

Verão vero vedado a todo vento

Só na verde folhagem tem guarida.

Deslizando por entre caules úmidos,

Vai mansa água alagando os formigueiros

E sobre ela boiando vão ligeiros

Uns três sapinhos mortos já túmidos.

Repentino rufar, quase atrevido,

Deixa terno segredo entretecido

No secreto calor de qualquer cacho.

Mas o verde mormaço surpreende

Num mangará lustroso que se acende:

Lâmpada vegetal de roxo facho.

Sobre o autor

Membro da Academia Cearense de Letras; dedica-se, também, à pesquisa da cultura popular

Últimos Artigos

Comentários


Li e aceito os termos de regulamento para moderação de comentários do site.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.