Arte Cearense

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00:00 · 27.07.2014

Pintura de Vando Figueirêdo

Galo

O artista plástico Vando Figueirêdo é um incansável pesquisador de novas formas se expressão em sua arte. A releitura que realiza de pinturas e de artistas é o seu mais recente desafio. Com isso, sempre surpreende o público com a capacidade de revisitar os caminhos da criação artística

Pintura de Artur Eduardo Benevides

As irmãs Florêncio

Eram quatro as irmãs. Todas de branco,

Saíam cada tarde para a igreja.

Caminhavam sorrindo, com leveza.

Suas almas aos céus já haviam dado.

Eram quatro as irmãs. O mesmo porte,

A mesma face humilde e delicada,

O mesmo passo incerto, mas confiante,

Levemente tocando na calçada.

De casa minha mãe lhes acenava

E todos lhes sorriam a qualquer hora,

Saudando nos seus olhos a bondade.

Passados e perdidos tantos anos,

Em puro amor relembro-as, com saudade,

Vendo-as ternas e tristes como os anjos.

De um Tema de Ronsard

Por que, tão bela sendo, me maltratas,

Se sabes que me dóis e me magoas

E me deixas igual a essas pessoas

De almas quase errantes, inexatas?

Abri-te a porta e a vida, mas me matas

E não ouves as súplicas e loas.

Eu te daria tantas cousas boas,

Mas te afastas qual som de serenatas.

A vida é curta, Amada, para tudo.

O tempo fica logo tão desnudo

Que brilho, e sonho, e viço - tudo passa.

Só temo que se um dia resolveres

Aceitar de uma vez os meus quereres

Eu já seja, num cais, velha barcaça.

II

Nem sei mais os seus nomes. Elas eram

Quatro moças a sós com o compromisso

De nunca procurar do amor os riscos

E ao Cristo se ofertaram e tudo deram.

Eram ingênuas e castas como rosas,

Eram frutos que a mão de Deus tocava,

Eram doces e frágeis e rezavam,

Eram pobres, mas cheias de doçura.

Eu ficava na rua para vê-las

E seus olhos brilhavam como estrelas,

Sob a lívida luz das tardes calmas.

Recordando do tempo os verdes anos,

Entendo que elas foram belas almas

Que nasceram na terra por engano.

Do Amor Final

Nos dejúrios do amor, quando dizemos

Tudo o que salva a humana condição,

A vida fica em grã levitação,

Mas, quase sempre, tontos, nos perdemos.

Quem não teve do amor a sagração?

Em nosso mais querer, todos sofremos.

Quantas mágoas e penas recebemos

Ao sentirmos a força da paixão!

E agora vens, ó última esperança!

No fim da tarde, bailo a contradança

Das pavanas gentis de teu olhar.

No pas de deux que une as nossas almas,

Chegas plena de Deus e então me acalmas

E me mostras as ilhas de teu Mar.

Sobre o autor

É membro da Academia Cearense de Letras e autor de uma vasta obra poética de singular lirismo

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