Arte Cearense

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00:00 · 13.07.2014

Pintura de Raimundo Cela

Sem Título

Nasceu na cidade de Sobral, aos 19 de julho de 1890, e faleceu em Niterói, aos 6 de novembro de 1954. Dedicou-se à pintura, ao desenho, e também se destacou como gravador

 

 

 

Poemas de José Alcides Pinto

Samaritana

Dá-me um gole da água desta bilha.

Doce, entra-me o peito com saudade.

Esta água refresca, e canta, e brilha,

E verte dos olhos com ansiedade.

Samaritana, a minha sede ativa

Não há água que a mate. Piedade

De quem, só por amor, sedento viva

E morra por viver sem caridade.

Jamais negaste a água de teu cântaro

Ao viajor cansado; e de tormento

Sede maior do que a de amor e encanto

Amarga do deserto a inclemência:

Como Jesus na cruz crucificado

Deram-lhe o amargo fel sem ter clemência.

II

Dá-me a água da fonte e os pés descalços.

Dá-me teus ombros nus, mostra os artelhos.

Teu vulto solitário, os braços tê-los

Entre meus braços juntos e amarrados

Quero-os. É meu desejo. E ansioso vê-los

Entre teus seios túrgidos cruzado,

E para além desse mundo, ignorados,

Entrelaçados corpos e cabelos.

Enfim, tu és mulher, Samaritana,

E eu, um poeta, beduíno e louco

Andarilho à procura de quem ama

Com o amor mais ardente, e os mais fatais

Destinos, dos que vivem muito pouco

E ainda pouco vivendo, sofrem mais.

III

Não me negaste a água (e então havia?)

E a sede me mataste; não obstante

Sede maior revela teu semblante

Piedoso e terno como o de Maria.

Por que escondes do mundo essa constante

Sede de amor, que te atormenta os dias?

Só tu podes fazer que as alegrias

Entrem em meu coração tão inconstante.

Não desvies o olhar de meu olhar

Pois a ardente expressão que nele vejo

Teu desejo de amor vem confirmar.

E nessa transparência radiosa

Minh'alma enternecida se ajoelha

E dobra-se em teus seios, amorosa.

Soneto do rei obscuro

Como o rato roendo o seu roído

Faz sua a tarde (aqui meu verso estanca

Esse rei do silêncio) ó coroado

Faze minha a tua tarde e o grande espanto

Das coisas que a que vives submisso.

(Ó o neutro viver sem paz e fezes:)

Um fio cose a blusa das aranhas:

É flor é flor é flor; o tempo é vício

De roer-se sem dó, de a si lembrar-se

Que a dor começa onde se acaba o sonho

- Língua de água doce e cristais frescos

Fluindo desse som secreto como

O medo escuro e só, o grande medo?

'À morte e à luz fugindo ó grande rei!

Sobre o autor

Ficcionista e poeta, é autor de "O Dragão"; Os Verdes Abutres da Colina"; e "Poesia Reunida" - 2 volumes

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