Arte Cearense

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00:00 · 29.06.2014

Arte Cearense

Pintura de Siegbert Franklin

Sem Título
Siegbert Franklin nasceu na cidade de Fortaleza em 1957. Dedicou-se, ao longo de seu percurso como artista plástico e ilustrador a uma incessante busca de caminhos novos por que pudesse, de modo criativo e instigante, inscrever-se como leitor de seu tempo e do homem

Poemas de Cláudio Neves

Cumbuco

O sol expira, esplende ainda na crista
Da onda lenta, custosa de erguer-se,
A lua nova começa a inscrever-se,
Apeia, impávido, o último surfista.
O coqueiral inúmero estertora
(parece que um orquestra ensaia longe)
E aquela nuvem com perfil de monge
Ou grifo perde-se horizonte afora.
Na especular areia da vazante,
Um casal de crianças se debruça
Sobre um peixe dourado agonizante,
E, sob um largo halo solar difuso,
Simples e súbito, o universo pulsa
Como um poema anônimo e inconcluso.

Explicação

É que há um tigre dento deste espelho
Um silêncio paciente atrás de nós,
Um salto pronto, uma garra veloz,
Sempre a morte mais rápida que o medo.
É que esse tigre salta espelho em espelho
(e num é Deus, e, num noutro, não crermos)
Ou se propaga em muitos num incêndio
Universal de olhos e silêncios.
Mas há uma hora, sem fuga nem centro,
Em que, no espelho de uma casa alheia,
Um alheio estado de sermos nós mesmos,
Buscamos seu passo, vácuo, suspenso
Anterior às casas e às estrelas.
Queremos que salte, ataque, nos receba.

Uma teoria do centro

É que é do mar o azul, o movimento,
E é do fogo o frio azul do centro.
E é do espelho um outro espelho dentro,
E dentro da palavra o esquecimento.
É que é do ar a obrigação do vento,
E é do gato o salto, a indiferença,
E é do polígono a circunferência
Como da morte cada pensamento.
É que é da cor a luz, da chama o vento
Como da voz o arrependimento,
Como do tempo ser um outro e o mesmo.
É que é do amor o fogo, o frio, e dentro
De seu espelho a combustão de um centro:
Seu ser exato quando ainda a esmo

O grito

Há sempre um fiorde e uma ponte
Em toda vertigem humana,
E sempre essas nuvens em chama
No som da palavra horizonte.
Há sempre um fiorde, uma ponte,
Dois homens de negro e o louco,
E curvas no espaço amplo e pouco,
E ser nesse andrógino instante.
Há sempre dois barcos que somem
Além do fiorde e da ponte
Que brumas tão rubras consomem.
E nesse grito a que ninguém responde,
Há sempre esse eco bifronte,
Esse espaço sem quando, esse tempo sem onde

Sobre o Autor
Cláudio Neves já venceu o Prêmio Ideal Clube de Literatura na categoria Livro Inédito

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